segunda-feira, 21 de junho de 2010

1839, Agosto - REVISTA LITERÁRIA ( Revista Literária, Periodico de Litteratura, Philosophia, Viagens, Sciencias, e Bellas Artes )

1839

Agosto

REVISTA LITERÁRIA

( Revista Literária, Periodico de Litteratura, Philosophia, Viagens, Sciencias, e Bellas Artes )

Tomo Quarto

3º Anno

Nº. XX

Pag. 200, 201, 202, 203, 204, 205

Porto - Typographia Commercial Portuense, Largo de S. João Novo, nº 12

1839

Porto

Bellas Artes.

 

DAGUERROTYPIA :

ou

Processo Photographico

de M. Daguerre

Haverá dous seculos que um physico napolitano, João Baptista Porta, observou que fazendo um pequeno buraco no postigo da janella d’um quarto bem fechado, ou melhor ainda em uma chapa metallica delgada applicada ao dito postigo, todos os objectos exteriores, cujos raios podem chegar ao buraco, vão pintar-se na parede do quarto que fica fronteira, com dimensões maiores ou menores segundo as distancias forem menores ou maiores; com as formas e situações relativas exactas, ao menos em grande extensão do quadro; e com as cores naturaes. Pouco tempo depois descobrio o mesmo physico que não é necessário que o buraco seja pequeno, e que pode ter qualquer largura, uma vez que se tape com um destes vidros polidos, que em virtude da sua forma tem o nome de lentes.

As imagens produzidas por intermedio do simples buraco são pouco intensas. As outras brilhão com um explendor proporcional á extensão superficial da lente que as gera. As primeiras sempre são mais ou menos confusas: pelo contrario as das lentes, quando são recebidas exactamente no foco, apresentam seus contornos mui distinctos; e muito mais depois da descoberta das lentes achromaticas, – depois que ás lentes simples compostas d’uma só espécie de vidros, e que por isso tinham focos distinctos quantas as cores differentes na luz branca, se substituíram as lentes achromaticas, que reúnem todos os raios possíveis em um so foco: e depois também que se descobrio a forma periscópica.

Porta mandou construir camaras obscuras portáteis. Em todas havia um tubo mais ou menos comprido, e munido d’uma lente. O papel ou papelão branco sobre o qual se iam pintar as imagens, estava no foco da lente. O physico napolitano destinava os seus pequenos apparelhos para as pessoas que não sabem desenhar. Segundo elle, não era preciso mais que seguir com a panta d’um lápis os contornos da imagem no foco para obter vistas exactíssimas dos mais complicados objectos.

Não se realisou porem completamente o que Porta tinha previsto. Os pintores e desenhistas, particularmente aquelles que fazem os vastos painéis dos panoramas e dioramas, tem algumas vezes de recorrer á camara obscura, mas é so para traçar em globo os contornos dos objectos, para os collocar nas verdadeiras proporções de grandeza e posição, e para satisfazer a todas as exigencias  da perspectiva linear. Pelo que toca aos effeitos dependentes da imperfeita diaphaneidade da nossa atmosphera, e que se tem caracterisado pelo termo um tanto improprio  de perspectiva aerea, os mesmos pintores mais experientes não esperavam que para os reproduzir com exactidão, lhes podesse servir d’algum auxilio a camara obscura. E por isso ninguém há que depois de ter admirado a clareza dos contornos, a verdade de formas e de cor, a degradação exacta de cores que offerecem as imagens produzidas por este instrumento, não mostrasse grande mágoa d’ellas se não conservarem por si mesmas, e não fizesse votos pela descoberta d’algum meio de as fixar sobre o papelão do foco. Taes dezejos eram geralmente reputados chimeras, e com tudo nós os vemos hoje realisados.

Em outros tempos conseguiram os alchymistas combinar a prata com o acido hydrochlorico. O producto desta combinação era um sal branco a que chamaram lua ou prata cornea. Este sal goza da singular propriedade de se fazer negro á luz, ennegrecendo tanto mais depressa quanto mais vivos são os raios luminosos que o teçam. Cubra-se uma folha de papel com uma camada de prata cornea, ou, como hoje se diz, chlorureto de prata: forme-se sobre esta camada por meio d’uma lentea imagem d’um objecto: as partes obscuras da imagem, ou aquellas em que não cahe a luz, conservam-se brancas, as partes muito illuminadas fazem~se completamente pretas: e as meias tintas serão representadas por cores pardas ou cinzentas mais ou menos carregadas.

Se sobre uma folha de papel coberto de chlorureto de prata collocarmos uma gravura, e expusermos isto assim á luz do sol, os traços da gravura cheios de tinta impedirão a passagem dos raios luminosos, e em virtude disto as partes correspondentes da capa de chlorureto de prata que cobre o papel, as partes tocadas por esses traços cheios de tinta conservarão sua primitiva alvura. Pelo contrario nos lugares onde não chegou a agua forte, ou que o buril não escavou, ou por outra, onde o papel não tomou tinta e conservou a sua semi transparencia, ahi passará a luz solar, e irá fazer negra a camada salina; o resultado necessário da operação virá por tanto a ser uma imagem semelhante na forma á gravura, mas inversa no que diz respeito ás cores; o branco da gravura é aqui preto, e vice-versa.

Estas applicações da propriedade tão curiosa do chlorureto de prata descoberta pelos alchimistas, parece que deviam ter sido tomadas em consideração desde muito tempo; não procédé porem assim o espírito humano. So nos primeiros annos do seculo 19 é que se encontrão os primeiros vestígios da arte photographica.

Ja dissemos (a) ([i]) que foram Wedgwood e o celebre H. Davy que primeiro se lembraram de copiar desenhos na camara obscura aproveitando a acção da luz sobre o nitrato de prata ou o chlorureto: mas ao mesmo tempo notamos que estes desenhos so se podiam ver ás furtadellas, porque em poucos momentos desappareciam se eram examinados á luz do dia.

Depois dos dous mencionados observadores seguem-se immediatamente Niepce e Daguerre.

Niepce era um proprietário que habitava junto de Chalons-sur-Saône; e que consagrava todos os instantes d’ocio a observações scientificas; e as que são relativas á photographia datam de 1814. As de M. Daguerre começam em 1826: e foi no principio deste mesmo anno que os dous observadores se começaram a communicar entre si, porque um fabricante d’instrumentos d’optica teve a indiscrição desculpável de dizer a Niepce que M. Daguerre trabalhava por fixar as imagens representadas na camara obscura.

Em 1827 fez Niepce uma viagem a Inglaterra; e em Dezembro desse mesmo anno apresentou á sociedade real de Londres uma memoria sobre seus trabalhos photographicos. A memoria ia acompanhada de muitas amostras em metal, todas ellas resultantes dos differentes methodos por elle descobertos. Já a esse tempo Niepce tinha conseguido fazer corresponder exactamente as cores da copia ás do original, claros a claros, sombras a sombras &c. bem como tinha tornado insensíveis suas copias á acção nigrifica dos raios solares.

O contracto de sociedade de Niepce e Daguerre para o trabalho em commum sobre os methodos photographicos tem a data de 14 de Dezembro de 1829. Os  contractos posteriores feitos entre Niepce filho, como herdeiro do pae, e Daguerre, fazem menção primeiramente d’aperfeiçoamentos feitos pelo pintor de Paris aos methodos do physico de Chalons; em segundo lugar de processos inteiramente novos descobertos por Daguerre, e que offerecem a grande vantagem de reproduzir as imagens 60 a 80 vezes mais depressa do que os processos antigos.

E na verdade Niepce depois de muitos ensaios infructuosos desanimou, porque nunca chegou a fazer uma preparação que promptamente se fizesse negra com o contacto da luz, a pontode lhe serem necessárias 12 horas e mais para obter um desenho photographico, o qual necessariamente havia de ser imperfeito, porque não era possível que em tão grande espaço de tempo não mudassem de poisição, a ate ás vezes de forma, as sombras e os claros da imagem na camara obscura. Alem disso era quase impossível que em tão grande espaço de tempo não ocorressem muitas causas imperceptíveis ou imprevistas que deviam transtornar o trabalho chimico da fixação da imagem. E ultimamente a camada photographica de Niepce depois de receber a imagem, posto que não se fizesse negra com a acção dos raios solares, com tudo fendia-se e gretava.

Todos estes inconvenientes, e todas as imperfeições que temos notado, foram pouco a pouco corrigidas por M. Daguerre á custa de trabalhosos e dispendiosos ensaios.

Raios luminosos extremamente ténues e enfraquecidos modificam assim mesmo a substancia do Daguérreótypo, e com tanta promptidão que as sombras do sol não tem tempo de fazer sensível mudança de posição. Os resultados são sempre certos uma vez que haja conformidade com as regras simplicíssimas d’arte. E finalmente as imagens ainda que estejam por espaço d’annos expostas ao sol, não se alteram nem na pureza, nem na nitidez, nem na harmonia.

As laminas ou chapas em que a luz pinta os admiráveis desenhos de M. Daguerre são folhas de casquinha ─ isto é, de cobre cobertas d’uma mui delgada capa de prata. Para commodidade dos viajantes, e por maior economia seria muito melhor usar do papel: e na verdade foi delle que primeiramente fez uso M. Daguerre; porem a falta de sensibilidade, a confusão das imagens, a pouca certeza dos resultados, e outros inconvenientes foram bastantes para elle trabalhar na descoberta d’outras chapas para receber os desenhos. As laminas metallicas de M. Daguerre custam 500 a 600 reis: mas podem receber successivamente cada uma cem differentes desenhos.

A incalculável vantagem do methodo actual de M. Daguerre é em parte devido á tenuidade extrema da camada photogenica, de forma que se pode dizer que elle opera sobre uma verdadeira pellicula. Por mais caros que sejam os ingredientes que elle emprega, a sua quantidade mínima faz com que nem se possa determinar o preço.

As pessoas que tem visto operar o artista, e que tem trabalhado conforme as instrucções deste, affirmam que não se requer manipulação alguma que todo o mundo não possa fazer: que não é preciso saber desenho, nem ter habilidade e expedição manual, de modo que qualquer maneja o Daguérreótypo com tanta perfeição como o próprio inventor.

A promptidão do methodo é que tem feito maior admiração. Dez minutos a doze são sempre de mais para tirar a vista d’uma paisagem, mesmo nos dias ennevoados do Inverno. No verão com bom sol gasta-se ametade do tempo; e menos se gastará no nosso Portugal, e nas regiões meridionaes. Advirta-se porem que este tempo é so o que a luz gasta a fazer a sua operação na chapa; não se contando o tempo que se emprega em preparar e collocar a camara obscura, a apparelhar a chapa, e a fazer a preparação posterior que torna essa chapa insensível á acção da luz depois de feito o desenho.

A preparação sobre que opera M. Daguerre é um reagente muito mais sensível á acção da luz do que qualquer dos que ate esse tempo se tinham descoberto. A luz da lua produz effeito appreciavel no Daguérreótypo. Esta propriedade provavelmente será origem de descobertas importantes para o progresso das sciencias que mais honram o espírito humano.



([i]) (a) Veja-se o numero 15 da Revista Litteraria de Março de 1839.

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