| 1841 Fevereiro | O Recreio Jornal das Familas Nº. 2 Pag. 36 | Cuidado com o daguerrotypo
Carlos Beaux é uma das pessoas que sabe servir-se do Daguerrotypo com mais conhecimento de causa, e por isso tem a todo o momento prompta aquella maquina para tirar as vistas das lindas e innumeras paizajens que se descobrem das janellas da sua casa de campo. Um dia que elle estava todo entregue ao seu divertimento favorito, eis-que um negocio imprevisto e de summa importância o obriga a ausentar-se de casa com toda a sua família, e a demorar-se por fora quasi dois dias. – No entanto houve um individuo que teve a curiosidade de visitar o seu quarto de cama, para o que lhe foi necessário escalar a parede que dava sobre o jardim e arrombar a vidraça. – Quando o dono da casa voltou, achou as gavetas abertas, e 3:200 francos de menos; mas como não tinha o menor indicio por onde pudesse conhecer o ladrão, forçoso lhe foi soffrer a cousa com paciência. – Para conseguir alguma distracção, nada havia mais próprio do que a execução de alguns desenhos por meio do Daguerrotypo. – Mete pois mãos á obra: o instrumento havia ficado preparado á sua partida, e a lamina já collocada no foco da Câmara obscura. – Mas ó surpreza! O desenho acha-se concluído, antes de começado, e o objecto que representa é inteiramente extravagante! Um homem vestido com uma blouse está com uma torquez na mão em acção de arrombar a gaveta aonde estava o dinheiro: os trastes que cercão a commoda a que pertencia a gaveta são os mesmos do quarto de Mr. Beaux; a figura do homem de blouse é a mesmíssima do seu jardineiro. – O incauto curioso, que certamente não pensava que o Daguerrotypo o atraiçoasse, havia penetrado no quarto no momento em que um raio de sol passava precisamente defronte da maquina que já estava prompta para operar. – A fidelidade com que o pérfido Daguerrotypo representou esta scena, tirou ao ladrão todos os meios de defeza perante o Delegado do Procurador Régio, a quem foi apresentada a lamina reveladora, como testemunha do roubo.
(Moniteur) |
- ACONTECIMENTOS - ANTOLOGIA – CRONOLOGIA – MISCELÂNIA - NOTÍCIAS - ... – SEC. XIX (Desde 1971, que tenho recolhido em diversas publicações e jornais de época, textos e informações diversas, de assuntos referentes à Fotografia, num período que limitei até ano de 1900,constituindo uma cronologia e antologia. Dada a enorme quantidade de informação que recolhi, este blog encontra-se em ainda organização.)
segunda-feira, 29 de março de 2010
O Recreio
O RECREIO Jornal das Familas - A PHOTOGRAPHIA NA BELGICA E NO BRASIL
| 1841 Abril | O RECREIO Jornal das Familas (Lisboa) Nº.4 Pag. 84, 85 | A PHOTOGRAPHIA NA BELGICA E NO BRASIL
Facilè est inventis addere, tinhão dito os antigos, e tinhão dito bem. Apenas Arago publicou o segredo da descoberta de Daguerre, apparecem logo em differentes partes da Europa outras e outras analogas: já demos conta da de Liepmann, em Berlim; dá-la-emos agora da de Breyer, em Liège. O relatorio que dá conta della é feito por Morren, em 5 de Outubro, á Academia das Sciencias de Bruxellas, e diz assim: "Quando se conhecêrão na Belgica os maravilhosos resultados obtidos por Daguerre, começou o Allemão Breyer, de Berlim, e Estudante de Medicina em Liège, a occupar-se, não do meio de fixar as imagens obtidas pela camara obscura, segundo o methodo de Daguerre, mas de achar maneira de reproduzir, sem o auxilio da dita camara obscura, os desenhos, as gravuras e os escriptos. Cinco dias antes da memoravel Sessão em que Arago leo á Academia das Sciencias de Paris o seu relatorio ácerca do daguerrotypo, enviei eu ao Sr. Barão de Stassart, Director desta Academia, um masso sellado diante de testemunhas, em que se continha o resultado dos primeiros trabalhos de Breyer, pedindo a sua leitura na Sessão immediata. "O methodo de Breyer é tal, que dentro de sete minutos, quando muito, e sem o emprego da camara escura, se obtem a copia exacta de qualquer desenho, gravura ou escripto que seja. Esta copia obtem-se por meio da influencia dos raios solares em papel heliographico, que, já preparado, custa apenas mais um ou meio centesimo por folha que o papel ordinario. O original que se emprega não soffre a minima deterioração. "Os desenhos obtidos por Daguerre exigem preparativos minuciosos, que se não fazem em menos de dez ou doze horas, e sobre tudo o emprego da camara obscura. "A descoberta de Breyer póde ter um sem numero de applicações, e todas da mais alta utilidade: a perfeição das copias, a imitação rigorosa das gravuras e dos desenhos os mais minuciosos, comparada com a barateza dos productos, são circumstancias que merecem a attencção da Academia. Na seguinte Sessão de 5 de Novembro terei a honra de vos communicar os novos resultados que o inventor tiver obtido."
DESCOBERTA DA POLIGRAPHIA
Ao que acaba de ler-se ácerca dos trabalhos de Breyer em Liége, devemos accrescentar o artigo seguinte, que, debaixo do título de = Descoberta da Poligraphia = se lê na Phenix de S. Paulo de 26 de Outubro, onde apparece assignado por Hercules Florence, genro do nobre Deputado o Sr. Alvares Machado. Comparem os leitores as datas, e decidão se o Mundo deve a descoberta da Photographia, ou pelo menos da Poligraphia, á Europa ou ao Brasil. "Ha nove annos que trabalho neste novo modo de imprimir, e ha mais de seis que o exercito nesta villa, tendo também desempenhado encommendas da capital e de outros pontos da provincia. É pois bem conhecida esta descoberta entre os Paulistas. Mesmo no Rio de Janeiro, algumas pessoas que tem alta representação publica, alguns distinctos artistas e negociantes, bem conhecidos estão informados de que inventei a Poligraphia, e, se fosse preciso, daria os nomes de muitas pessoas respeitaveis. Não tenho dado ampla publicação a esta descoberta, por querer aperfeiçoa-la, e é bem claro que nesta villa de S. Carlos eu devia precisar de muitos recursos para adianta-la mais depressa. Senefelder teve que trabalhar muitos annos sem fructo, na Allemanha, tão abundante de recursos, luctando com a prespectiva da miseria; e a Lithographia levou 17 annos para passar daquelle pais á França! "A Poligraphia é já facto averiguado que as artes vão adquirir; a prova é, como já disse, que fazem 6 annos que imprimo por ella para o publico desta provincia. "Um motivo poderoso me impelle a fazer esta declaração. Movido por principios que é inutil declarar, não tenho feito segredo do meu processo para com pessoas dignas de confiança. Via-me rodeado de difficuldades locaes; em momentos de total desanimo, julgava que o meu processo acabaria comigo: quiz inicia-lo entre os artistas, e uma memoria declarando tudo foi enviada a Paris o anno passado (1839) por obsequio de uma pessoa que tinha a bondade de apreciar o meu invento. "Outra memoria mais resumida foi enviada em 1831 pelo Sr. Pontois. Receoso de que estes escriptos venhão por fim a cahir em mãos que se appropriem totalmente esta descoberta, e sendo justo que ao menos a idéa fundamental a que serve de origem seja publicamente reconhecida por pertencer ao seu verdadeiro author, sou impellido a fazer a declaração, que precede, ao respeitavel publico. "Outra descoberta minha, conhecida tambem nesta villa, e por algumas pessoas no Rio de Janeiro, é a Photographia: o escripto que foi enviado a Paris levava estes dois titulos: Descoberta da Photographia, ou impressão pela luz solar. Indagações sobre a fixação das imagens na camara escura pela acção da luz. Um desenho photographiado por mim foi apresentado ao Principe de Joinville e posto no seu album por uma pessoa a quem devo este favor. Acabo de ser informado que na Allemanha se tem imprimido pela luz, e que em Paris se está levando a fixação das imagens a muita perfeição. Como eu tratei pouco da photographia, por precisar de meios mais complicados, e de sufficientes conhecimentos chimicos, não disputarei descobertas a ninguem, porque uma mesma idéa póde vir a duas pessoas, porque sempre achei precaridade nos factos que eu alcançava, e a cada um o que lhe é devido; mas antecipo esta declaração a respeito da Polygraphia, que tem tão bellas propriedades, para que a todo o tempo se conheça o seu inventor."
(Diarios do Brasil) |
O RECREIO Jornal das Familas - REVELAÇÃO DO SERGREDO DA POLYGRAPHIA
| 1841 Maio | O RECREIO Jornal das Familas (Lisboa) Nº. 5 Pag. 105, 106, 107 | REVELAÇÃO DO SERGREDO DA POLYGRAPHIA
Mais vezes temos fallado da descoberta da polygraphia, invento devido ao Sr. Hercules Florence, morador na villa de S. Carlos, provincia de S. Paulo; o segredo porém desta importante descoberta tinha ficado até agora occulto, e pelo que haviamos dito sobre o assumpto, pequena idéa se podia fazer da importancia do resultado. Hoje, authorisados por seu author em carta que nos escreve de 25 de Fevereiro, estamos em circumstancias de satisfazer a avidez dos curiosos a um e outro respeito; porque não só podemos revelar, como faremos, em que o dito segredo consiste, mas temos além disto na nossa mão as provas do resultado da sua applicação e emprego. Acha-se nesta typographia uma collecção de 23 impressos polygraphados em diversas épocas desde 1831. O author convida os Srs. Artistas do Rio de Janeiro e a todos os amigos das artes que se quizerem certificar da realidade da descoberta da polygraphia, para que os venhão examinar. « Notarão sem duvida, diz elle, muito atrazo na gravura e incorrecção no desenho; mas é isto devido a difficuldades materiaes que me occupo de remover com o emprego de um papel cellular, em vez da preparação da gomma-arabia, da cera e da garça, de que agora uso.» Já se vê na dita collecção um desenho feito com este papel; e o author tem já conseguido fazer um papel que tem o gráo tão fino como o das pedras lithographicas, sobre o qual está fazrndo um novo ensaio, que, por causa de outras occupações, não póde, por ora, apresentar. De varias impressões polychromas (de muitas côres) se achão na collecção dois exemplos, que, pelo que diz o author, não são dos melhores, em consequencia de que, á medida que erão promptas as encommendas, se entregavão a seus donos. Distinguem-se cinco côres em um dos exemplares, e quatro no outro. Quanto ao methodo porque taes resultados se obtiverão e se podem obter outros iguaes, eis-aqui uma breve exposição do processo: «A tinta é composta de oleo de linhaça concentrado, pouca cera e pós pretos. Deita-se, em quanto quente, em uma fôrma quadragular: depois defria, toma a consistencis do sabão, e apresenta uma superficie perfeitamente plana. «Estende-se papel fino sobre uma taboa, põe-se-lhe uma camada espessa de gomma-arabia tinta de preto, e por cima desta outr de cera. Traça-se o escripto ou o desenho com ponteiros de varias fórmas, de maneira que o traço deixe a gomma-arabia descoberta. «Estende-se por cima do desenho assim gravado uma garça fina, que pela pressão que se faz com uma espatula curva, se prende na cera, e liga todas as partes isoladas do desenho. Cobre-se tudo com um pouco da mesma tinta da fôrma. Tira-se o papel da taboa e põe-se na agoa. A gomma-arabia que está entre o papel e cera dissolve-se e desliga uma da outra; a chapa de cera apresenta então o reverso do desenho ou do escripto, e, se se lhe não põe tinta, póde-se vêr a luz atravéz de todos os traços. Põe-se esta chapa de cera sobre a tinta da fôrma, e fechão-se as beiradas com tiras de papel grudadas. Resulta que a chapa tem a tinta por baixo, a qual com a força da prensa passa atravéz do desenho e imprime-se sobre o papel. Mas é indispensavel que o papel tenha em si um liquido que tenha acção dissolvente sobre a tinta, e por isso põe-se um pouco de decoada forte na agoa em que se molha o papel aonde se vai imprimir. «Tenho imprimido muito tempo com gelatina, com ella foi que imprimi o mappa itinerario da provincia por ordem do Governo; mas esta tinta, que era tão vantajosa para a nitidez dos exemplares, tinha o defeito de não ser indelevel, e de não imprimir com qualquer pequeno gráo de frio. «Quando se quer imprimir com muitas côres, devem setas ser moídas com o mesmo oleo e cera; fazem-se depois talhadas de diversos tamanhos, e embutem-se na tinta da fôrma. Aqui direi de passagem que, se tivesse tido tempo, teria intentado fazer desenhos por esta fórma, e teria impresso quadros a oleo. «Vê-se agora como é que a minha chapa é fornecida de tinta para muitos milheiros de exemplares, porque póde a tinta que está por baixo ter tal espessura que seja inexgotavel. « Estou agora fazendo um papel cellular , ou poroso, permeavel á tinta, para, em vez de cera e garça, formar nelle desenhos cellulares, isto é, taes que nos traços e sombras os póros sejão abertos, e que em tudo o que for campo os póros sejam tapados. Por esta maneira se poderá obter o desenho de lapis como na lithographia, e com o papel cellular se transformarão as provas que se lhe imprimirem em outras tantas chapas. «Nesta nova arte não se empregão pedras, nem chapas de metal, nem madeiras; desenha-se no rigor da palavra, e a impressão é a mais prompta possivel, visto que nunca se poe tinta na chapa: tem-me acontecido dever apertar e tirar com toda a promptidão, porque a mais pequena demora era nociva á nitidez da prova.» Nisto consiste o segredo da importante descoberta da polygraphya: não se sabe qual deve admirar-se mais, se a simplicidade do meio que se emprega, se a grandeza do resultado que se obtem.
(Jornal do Commercio) |