1845
20 de Junho
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A Coallisão
nº 140
pag.4
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RETRATOS DAGUERREOTYPADOS A CORES NATURAES
A 1$920 Reis, e 2$880 Reis
Mrs ANATOLE E ADOLPHO, artistas de Paris, tem a honra de anunciar ao publico que, tendo recebido as drogas que esperavam de França, continuam a tirar retratos desde as 10 horas da manhã às 6 da tarde, na rua das Hortas, nº 151 segundo andar. [370]
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- ACONTECIMENTOS - ANTOLOGIA – CRONOLOGIA – MISCELÂNIA - NOTÍCIAS - ... – SEC. XIX (Desde 1971, que tenho recolhido em diversas publicações e jornais de época, textos e informações diversas, de assuntos referentes à Fotografia, num período que limitei até ano de 1900,constituindo uma cronologia e antologia. Dada a enorme quantidade de informação que recolhi, este blog encontra-se em ainda organização.)
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
1836
| 1836 | | Wenceslau Cifka, chegou a Portugal, juntamente com D. Fernando Saxe-Coburgo-Gotha. |
1838, 18 de Setembro – data de nascimento de Emilio Biel
| 1838 18 de Setembro | | CARL EMIL BIEL (EMILO BIEL) nasce em Annaberg (Alemanha). (Annaberg, 18.Setembro.1838 - Porto, 15.Setembro.1915) |
1838, 13 de Novembro – Data de nascimento de Carlos Relvas
| 1838 13 de Novembro | | CARLOS RELVAS, nasce na Golegã. |
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
1839, 16 de Fevereiro - O PANORAMA
| 1839 16 de Fevereiro | O PANORAMA JORNAL LITTERARIO E INSTRUCTIVO DA Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis Lisboa | REVOLUÇÃO NAS ARTES DO DESENHO O INVENTO, ou descubrimento de que vamos fallar, merece um e outro titulo; a natureza e o engenho do homem podem ahi apostar primasias. A natureza apparece retratando-se a si mesma, copiando as suas obras assim como as da arte, não em paineis presenciaes, inconstantes e fugitivos, como eram e são os rios, os lagos, as pedras e metaes polidos, mas em materia que retem o simulacro do objecto visivel e o fica repetindo com a mais cabal semelhança ainda depois de ausente: isto pelo que toca á natureza. Agora pelo que respeita ao engenho do homem, foi elle quem a forçou a este milagre novo e inesperado. Duas cousas nos dão pena querendo escrever esta noticia; a primeira é que não possamos explica-la e circumstancia-la como cumpria, por falleceremainda as precisas e miudas informações; a segunda, que desse mesmo pouco com que um jornal de Paris, o Seculo, nos vem acenando, não nos consente a indole e extensão da nossa folha apresentar senão o pouquissimo. A camara luminosa ou optica, segundo vulgarmente se diz, é formosa recreação de nossa infancia, e nos permitte viajar sentados n’uma cadeira, no canto da nossa casa, por todos os portos, cidades, ruinas, bosques e desertos do mundo; mas se taes pregrinações não nos custam nem fadigas nem perigos, nem dinheiro e largos annos, tambem a idéa que nos trazem das coisas apartadas é por demais incompleta ou falsa; e todos esses quadros de mão humana são imperfeitos como tudo que d’ella sae. A camara luminosa levava grandes vantagens á camara obscura em um sentido, se em outra lhas cedia; porque, se ahi o artista cercado de trevas via descer, sobre o seu papel alvo e nú, as formas perfeitas, córadas e vivas das coisas externas, e dessas, todas as que lá por fóra senão levavam e fugiam, as prendia com o lapis e pincel, e compunha, ou antes copiava natural e verdadeiro o seu quadro; por outra parte o alcance desta sua magica era sempre mui limitado: e de mais dado que as formas e côres que primitivamente baixavam ao seu papel fossem, nem podessem deixar de ser completas e exactas, como prendê-las era trabalho de mão e instrumentos humanos; ahi vinham tambem forçosamente as differenças, os erros e quando menos os desprimores. Da camara obscura saíam lindas recordações abreviadas do mundo circumstante; mas esses paineis que mais eram formulas representativas do que emanações reaes dos corpos, mais retratos levemente desfigurados do que deflexos proprios, inteiros e absolutos, esses paineis requeriam tempo, paciencia, arte e uso e uma palheta carregada de todas as cores do iris. D’ora ávante porém, sem palheta, nem lapis, sem preceitos artisticos nem dispendio de horas e dias, que digo, sem mover a mão, sem abrir os olhos e até dormitando, poderá o viajante enriquecer a sua pasta com todos os monumentos, edificios e paizagens das longes terras, e o amante mais hospede nas bellas artes, obter por si mesmo o retrato dos seus amores; tão ao natural como o traz debuchado no coração, e mais natural ainda porque não lhe faltarão as miudesas minimas que a vista não alcança e só a lente lhe poderia revelar. Os nossos leitores nos estão já aqui pedindo impacientes a solução de tão incrivel problêma; o que podemos é apontar-lha, isso vamos fazer. Eis-aqui o que o senhor Arago relatou á academia franceza, de cuja é secretario: o senhor Daguerre, famigerado pintor do diorama, andava, largos annos havia. Todo embebido em procurar alguma substancia onde a luz se podesse imprimir, e deixar de si vestigios distinctos, que ainda depois d’ella ausente a denunciassem com todas suas modificações e circumstancias; para este fim andou batendo á porta de varias materias e interrogando todos os corpos e invocando toda a natureza. Em tudo é a diligencia mãe de boa ventura. Encontrou ao cabo uma substancia como a elle sonhára, tão sensivel á acção immediata da luz, que esta lhe deixa os vestigios evidentes do seu contacto, d’esse contacto tão subtil e inapreciavel. Estes vestigios ficam representados por côres que teem em cada ponto uma relação perfeita com os diversos gráus d’intensidade da mesma luz. Não se cuide, comtudo, haver nesta estampa as proprias côres do objecto que ellas representam; não, as diversas côres dos originaes só são denotadas e significadas na copia, com uma extrma exactidão, pela maior ou menor força da luz, isto é, pelo maior ou menor effeito da impressão da luz: vae do original á copia uma differença a este respeito bem comparavel com a que faz uma gravura optima d’um painel a oleo cujo ella fôr perfeitissimo traslado. O vermelho, o azul, o amarello, o verde etc. são significados por combinações por luz e sombra, por meias tintas mais ou menos claras ou escuras, segundo a somma de potencia clarificante que encerra por sua natureza cada uma destas côres. Mas, o que é certo apezar de todo esse desconto, é, que estas são tão extremadas, tem um tal relevo e tamanha verdade como se não pode imaginar sem as ter visto. A delicadeza dos traços, a pureza das fórmas, a exactidão e harmonia dos tons, a perspectiva aeria, o primor das miudezas, isso tudo se representa com a suprema perfeição. A lente, malsim terrivel das malhores obras do desenho, que em todos encontra senões e desares inevitaveis para a arte, gire quanto quizer sobre estas figuras, fite n’ellas quanto tempo lhe agradar, o seu olho inexoravel, desesperar-se-já de não descobrir senão perfeições, depois perfeições, e sempre tudo perfeições. Não já porque nos espantemos: a luz, a propria luz foi a pintora. Do pae da luz creáram divindade ás artes os fabuladores da Grecia; da fabula fez historia o engenho mais creador da nossa edade. Estas gravuras abertas pelo buril dos raios luminosos, estas estampas baixadas, porque assim o digamos, do ceu, mostrou-as o senhor Daguerre aos senhores Arago, Biot, Humboldt e outros, que todos ficaram suspensos e enfeitiçados. O auctor limitado n’um pequenino espaço da ponte, chamada das Artes, trasladou toda a carreira de grandiosidades monumentaes que ufanam e affamam a margem direita do Sena, comprehendendo aquella parte do Louvre que alardea a opulenta galleria das pinturas: e não já linha, não já ponto que não saisse perfeitissimo. Da mesma arte apanhou aquella immensa e gigantesca fabrica de Nossa Senhora de Paris, com toda a sua profusissima cuberta de esculpturas gothicas. Mais fez, que repetiu o prospecto do mesmo edificio, ás oito da manhaã, ao meio dia e ás quatro da tarde, e isto em dois dias diversos, um de chuva, outro de sol; e todas estas vistas, sem exceptuar aquellas mesmas em que a extensão relativa das sombras é identica para quem as observa teem physionomias tão proprias e tão suas, que num relanciar de olhos se adivinha a hora do dia e circumstancias atmosphericas em que se fez cada retrato. E devendo parecer já isto a maxima maravilha, ainda já outra e é a quasi magica ligeireza com que se opera; oito ou dez minutos bastam no clima e ceu ordinariamente espero de Paris para começo e remate de taes quadros; mas com ar mais puro e luz mais estreme, como no Egypto, um minuto bastaria. Todavia, diz o notociador do Seculo, estas admiraveis representações das exterioridades da natureza, certamente por passarem por ellas mãos humanas, carecem do que quer que seja como objectos d’arte. Coisa admiravel! Aquella mesma potencia que as creou parece ausentar-se logo d’ellas: estas obras da luz carecem de luz. Nos proprios pontos mais directamente clareados já uma fallencia de vivesa e de lustre: e na verdade são umas vistas, que a despeito de todas as harmonias de sua impeccavel perfeição, como que parecem sob um ceu denso e boreal que as está esmorecendo e esfriando: parece que ao coarem-se pelo aparelho optico do auctor, todas á uma se revestem do aspecto melancholico do horizonte quando quer anoitecer. Segundo contra. Apesar da summa rapidez da luz, como o seu effeito na substancia do Sr. Daguerre não é instantaneo, qualquer objecto que se mova com velocidade ou lhe não deixa vestigios seus, ou só muito confusos. As folhas das arvores por exemplo, como aquellas que sempre andam balouçando no vento, ficam pelo demais mui perturbadas: mas onde só se pertenderem imagens de natureza sem vida, edificios, monumentos, estatuas ou cousas de semelhante genero, ahi sim, ahi triunfa de todos os outros este novo methodo. Rosto de homem vivo ainda até hoje se não pôde retratar que satisfizesse. Mas o auctor ainda não perdeu a esperança de lá chegar. É inegavel á vista do que levâmos apontado, que este invento, um dos mais admiraveis de nossos tempos, terá largas consequencias em todas as artes do desenho, e contribuirá não só para o progresso do luxo util e aformoseador da sociedade, mas tambem para o maior aproveitamento das viagens, quer sejam scientificas, ou artisticas, ou moraes, quer de simples divertimento e recreação. O auctor, porém, ainda não declarou o seu segredo; e esta immensa revolução, para arrebatar e espalhar-se por todo o mundo, só aguarda uma palavra d’elle, o seu fiat lux. ¤ Este mesmo texto, é publicado no Jornal do Commercio, (Nº. 98 pag 2) do Rio de Janeiro, no dia 1 de Maio de 1839. ( Ao ler o livro de Boris Kossoy HERCULES FLORENCE – 1833: a descoberta isolada da fotografia no Brasil ( 2ª Edição. Livraria DUAS CIDADES LTDA, São Paulo, 1980 ), constatei este facto, pois nas pag 43, 44 e 45, no capítulo intitulado 2. A Descoberta de Daguerre Noticiada no Brasil, vem transcrito o mesmo texto. |
domingo, 29 de agosto de 2010
1839, Março - REVISTA LITERÁRIA
| 1839 Março | REVISTA LITERÁRIA ( Revista Literária, Periodico de Litteratura, Philosophia, Viagens, Sciencias, e Bellas Artes ) Tomo Terceiro 2º Anno Porto – Typographia Commercial Portuense, Largo de S. João Novo, Nº. 12 1839 Porto | Bellas Artes DEZENHO OBTIDO PELA LUZ, OU PROCESSO PELO QUAL OS OBJECTOS POR SI MESMOS SE DESENHAM SEM AJUDA DO LÁPIS. (*) ([i]) Na primavera de 1834, diz M. Talbot, comecei eu a ensaiar um methodo, que já já mais tempo eu tinha tenção de experimentar, com o intento de applicar a um objecto util a propriedade tão curiosa que tem o nitrato de prata de se corar quando se expõe aos raios violentos da luz do sol. Eis o que eu me propuz fazer para aproveitar esta propriedade, que os chimicos já desde muito tempo tinhão descoberto. “ Pareceu-me que devia primeiramente estender sobre uma folha de papel sufficiente quantidade de nitrato de prata, e expor depois o papel aos raios do sol, tendo previamente posto de premeio algum objecto que lançasse sobre o papel uma sombra bem limitada. A luz cahindo no resto do papel devia fazel-o negro, em quanto as partes assombradas se conservarião brancas. Esperava eu que daqui resultasse um dezenho ou imagem que representasse até certo ponto o objecto que a tinha produzido; mas ao mesmo tempo me lembrava que tinha de conservar estes desenhos em uma pasta, e que não os podia ver senão a uma luz artificial. “ Tal foi o meu primeiro projecto antes de ser ampliado e corrigido pela experiencia. Só passado tempo, e já depois de ter obtido muitos resultados inteiramente novos, é que me lembrei de indagar se este methodo já tinha sido practicado ou proposto por alguem: soube que com effeito já tivera sido tentado, mas sem perseverança, e em pequeno numero de cazos: nem mesmo pude descobrir documentos satisfactorios, que explicassem miudamente a maneira de o practicar com vantagem. O que eu achei mais positivo sobre este ponto foi uma memoria de Sir Humphry Davy publicada no primeiro Volume do Jornal da Royal Institution. A primeira idea destes ensaios parece ser devida a Wedgwood, que, junto com Sir H. Davy, fez grande numero de experiencias, todas baldadas. Um dos maiores obstaculos que estes dous experimentadores encontrárão, foi o não poderem fazer com que deixasse de se fazer negro o papel, sobre o qual se pintavão as imagens, por cauza da acção da luz sobre o nitrato de prata. Esta circunstancia, e a declaração de que não tinhão podido obviar a este inconveniente, serião bastantes para me fazerem suppor inexequivel o meu projecto o meu projecto, se por fortuna eu não tivesse descoberto, antes de ler a tal memoria, o meio de vencer tamanha difficuldade, e de fixar a imagem de maneira que ella podesse expor-se á luz sem se destruir ou deteriorar. “ No decurso das experiencias a que eu procedi notei, não sem grande admiração minha, a variedade de effeitos que se pode obter d’um limitado numero de processos, combinando-os de differentes maneiras. É desta sorte que imagens obtidas por este methodo, e que no fim de um anno tinhão apparecido perfeitamente conservadas, se alteravão com tudo no anno seguinte, em quanto outras conservavão toda a sua pureza. Esta circunstancia junta com o facto de se terem perdido os meus primeiros dezenhos (porque o papel se tinha feito todo negro) determinárão-me a observar por longo espaço de tempo as mudanças que experimentarião estes dezenhos, porque eu receava que por fim todos tivessem a mesma sorte que os primeiros. Porem, com grande satisfação minha, vi que os meus temores erão mal fundados; e como muitos destes dezenhos que eu conservei por tempo de cinco annos ainda não tem o mais pequeno signal de alteração, julgo-me autorisado a dar alguma importancia aos resultados das minhas experiencias, e ás conclusões que dellas posso deduzir. As imagens por este methodo obtidas são brancas, mas o fundo em que assentão pode ser de diversas cores. “ É tal a variedade de processos que este methodo comprehende, que variando somente as proporções, e alguns trabalhos pouco importantes de manipulação, podem-se obter as cores seguintes: Azul Celest Amarello Cor de roza Pardo mais ou menos carregado Preto Falta só neste numero a cor verde, e um pardo muito carregado que é quasi preto. O azul produz bello effeito, semelhante ao da louça de Wedgwood, cuja pintura é branca em fundo azul. Os dezenhos em que esta cor se emprega conservão se intactos, com tanto que estejão guardados em uma pasta, porque a materia que os produz não é sujeita a modificação alguma espontanea, e não carece de nenhum meio conservador. Estas diversas modificações de cores são outros tantos compostos chimicos differentes, que os chimicos até hoje não tinhão distinguido. Os primeiros objectos cuja imagem eu pertendi obter forão folhas e flores, quer frescas, quer tiradas do meu herbario: umas e outras forão reproduzidas com tanta fidelidade e exactidão, que se distinguião as immensas nervuras das folhas, e os tenues pellos que cobrem as plantas &c. As flores mais compostas e delicadas erão copiadas com tão minuciosa exactidão que nem faltavão os mesmos orgãos que so com auxilio de microscopio se podem ver. E com tudo um desenho destes que levaría a um artistas semanas inteiras de assiduo trabalho, alcança-se com os meios que a chimica põe á nossa disposição em tão pouco tempo, e com tão pouco trabalho, como mais simples e menos complicado dezenho. “ Um exemplo já será bastante para fazer entender a minuciosa exactidão com que por este methodo se podem reproduzir os objectos. Tendo um dia obtido a imagem de um pedaço de renda cujo risco era muito complicado, mostrei-o a algumas pessoas situadas a poucos pés de distancia, perguntando-lhes se achavão exacta a reprodução? Respondêrão-me que eu queria enganal’-as, porquanto ellas bem vião que aquillo não era um dezenho, mas a propria renda. “ Desde os primeiros tempos em que eu me dediquei a estas experiencias, comecei a ter grande pena por ver que tão bellos desenhos obtidos pela acção da luz, estavão condemnados a uma existencia ephemera, e tomei logo a resolução de descobrir um meio, que, quando não impedisse inteiramente a sua destruição, a retardasse ao menos quanto fosse possivel. E as considerações seguintes fizerão-me conceber a possibilidade de chegar a este resultado. “ O nitrato de prata que se fez negro com a acção da luz já não é chimicamente a mesma substancia, que era antes daqella modificação. Por conseguinte, se um desenho obtido pelos raios solares se submetter a uma outra operação chimica, poderá esta ultima produzir effeitos sobre as partes brancas do desenho, e sobre as que forem pretas, e não seria impossivel que depois desta ultima operação, as partes primitivamente brancas e pretas deixassem de ser susceptiveis de soffrer mais alguma modificação espontanea, ou tambem que no cazo que ellas ainda a podessem ter, não resultasse com tudo que as duas cores differentes tendessem a assemelhar-se e confundir-se. No cazo pois em que ellas podessem ter algumas mudanças sem deixarem de ser differentes, a imagem seria conservada, e desta sorte obtinha o fim que me propunha. “ Se se affirmasse que a exposição do desenho á luz do sol devia necessariamente reduzir as duas côres de que se elle se compõe a uma só tinta e destruir assim a imagem, proferia-se uma asserção, que seria indispensavel provar. Eu fiz o seguinte raciocinio designando pela letra A a exposição á luz do sol, e por B uma operação chimica indeterminada. Ora como se não pode demonstrar a priori que o resultado final da serie de operações A B A deva ser o mesmo que o de B A, parece rasoavel continuar as experiencias variando a operação B ate se descubrir a que convem ao fim proposto, ou ate que se tenhão feito tantas operações que se percão as esperanças de encontrar a que conviría. “ Os meus primeiros ensaios forão infructuosos, como eu tinha previsto; mas depois de algum tempo achei um processo que me satisfez, e não tardou que descobrisse um segundo. Inclinei-me mais especialmente a um destes processos, porque o outro exigia mais cuidado na operação, posto que fosse igual, senão superior ao primeiro em quanto á perfeição do resultado. “ Esta operação chimica, que eu chamo processo de conservação (1) ([ii]), é muito mais efficaz do que eu suppunha. O papel que primitivamente era tão sensivel á luz fica tão insensivel depois desta operação, que deixando eu alguns desenhos expostos ao sol de verão por mais de uma hora, não experimentárão a minima alteração. “ Este phenomeno, que em poucas palavras eu acabo de mencionar, parece-me tão maravilhoso como qualquer dos grandes phenomenos que o estudo da natureza nos tem ate hoje revelado. A couza menos estavel deste mundo – uma nuvem, emblema proverbial do que já mais passageiro e mais mudavel, pode ser apanhada pelo encanto da minha operação magica, e fixar-se para sempre na posição que parecia não dever occupar mais que um instante! “ Antes de passar mais adiante devo dizer, que não é absolutamente indispensavel recorrer ao meio de conservação; se eu me dei ao trabalho de o procurar foi porque suppuz ao principio que semelhantes desenhos perderião com o tempo toddo o seu valor senão houvesse meio de os preservar desta alteração; a experiencia porem mostrou-me depois que já outros muitos modos de alcançar o mesmo fim, e de dar aos desenhos uma certa duração, uma vez que se tenham abrigados da acção directa dos raios solares. Todavia ser-me-ia penozo dar conta de todos os meios de obter este resultado, porque nem sempre tomei nota das circunstancias que me poderião esclarecer sobre este ponto; de modo que foi mais por acazo que eu fiz estas observações, tendo só notado que alguns dos desenhos que eu não havia submettido ao processo de conservação tinhão não obstante conservado a sua nitidez e brancura por tempo de um anno, e de dous, em quanto outros preparados em differentes circunstancias se fizerão inteiramente negros em espaços de tempo dez vezes menores. Tomo nota, e denuncio este facto, cuja importancia será impossivel prever neste momento, porque ainda que na maior parte dos cazos seja mais prudente ter o trabalho de applicar o processo de conservação ás imagens obtidas, com tudo já outros em que se poderá julgar mais util não fazer semelhante applicação contentando-nos com desenhos que podem conservar a sua brancura á sombra muitos annos. Assim o naturalista que deseja em uma viagem conservar a imagem das plantas que encontrou, sem se dar ao trabalho de as secar, e de as conduzir, não tem mais do que pegar em uma folha de papel preparado, fazer-lhe cahir em cima a imagem da planta que quer conservar, e fechal’-a na sua carteira. O defeito destes desenhos é não ser bem igual o fundo; mas isto pouco importa quando so queremos a utilidade, sem nos importar a belleza do effeito obtido. “ Agora direi alguma couza sobre os differentes ramos da arte a que o meu methodo me parece applicavel. Retratos de perfil; ou tirados pela sombra do rosto. Pelo que toca a exactidão não tem comparação alguma um retrato obtido por meio da acção dos raios solares sobre o papel preparado, com o que é traçado pela mão do mais habil artista, cujo menor desvio pode alterar extraordinariamente a semelhança. Pintura em vidro. Os desenhos que se obtem expondo as pinturas em vidro á luz do sol, e recebendo a imagem sobre o papel preparado, produzem um mui notavel effeito. Todo o vidro que rodeia a pintura deve estar pintado de preto, como aquelle que algumas vezes é empregado na lanterna magica: na pintura do vidro não deve haver as cores amerella ou vermelha vivas, porque estas duas cores interceptão os raios violetes, unicos que produzem o effeito chimico. As pinturas assim obtidas são as que mais se parecem com as que são o producto do pincel do artista. As pessoas a quem as tenho mostrado tem julgado que são verdadeiras pinturas confessando ao mesmo tempo que são d’um genero inteiramente novo, e que deve ser difficil de apprender. So nestas pinturas é que me tem sido possivel obter diversidade de cores; entretanto por falta de vagar não pude levar mais adiante as minhas investigações. Era por certo um immenso progresso se se chegasse a poder reproduzir os objectos com as suas cores naturaes. Eu por mim não me atrevo a ter esperanças de que já mais se chegue a este resultado: no entretanto já é um passo para esta descoberta o ter podido obter alguns indicios de variedades de cores. Applicação ao microscopio. Esta é certamente a parte das munhias descobertas mais importante e mais util: e consiste na applicação do meu methodo á reproducção da imagem dos objectos amplificados pelo microscopio solar. “ Os objectos que o microscopio offerece a nossos olhos, com quanto pareção maravilhosos, offerecem pela maior parte uma indecifravel complicação. É verdade que a vista pode comprehender a totalidade dos objectos que se apresentão no campo da visão; porem o pincel não pode reproduzir as innumeraveis minucias que offerece a natureza em suas obras. Qual artista teria o saber e a paciencia necessaria para as copiar? E suppondo mesmo que elle o podesse fazer, não seria isso á custa d’um tempo precioso que elle podia aproveitar melhor em objectos muito mais uteis? Por estas razões tratei eu de substituir o innimitavel pincel da natureza, aos esforços que em vão faria a arte para reproduzir effeitos tão complicados. “ Meus primeiros ensaios forão perdidos, posto que eu tivesse escolhido um dia claro, e fizesse cahir sobre o papel preparado uma boa imagem do objecto. “ Quando voltei passada uma hora, nada encontrei que se parecesse com um desenho: e estava já disposto a abandonar esta experiencia quando me lembrei de examinar se na verdade o muriato de prata era de todas as substancias a mais sensivel á acção chimica dos raios do sol. Ainda que eu não tivesse facto algum a oppor a esta opinião geralmente recebida, determinei comtudo continuar as minhas tentativas neste sentido até me convencer experimentalmente da verdade ou falsidade de tal opinião. “ Comecei por tanto uma outra serie de experiencias sobre as diversas preparações que são susceptiveis de receber influencia da luz solar, e logo obtive satisfactorios resultados, e até maravilhosos. Entretanto devo dizer que eu so considerava esta questão practicamente; porque hei-de confessar que me é impossivel explicar theoricamente a razão porque um papel preparado por tal processo é mais sensivel á luz, do que o que passou por differente preparação. “ O resultado destas experiencias foi a descoberta d’um modo de preparação muito superior em sensibilidade ao que ate ali eu tinha empregado (1) ([iii]),e deste modo posso realisar completamente todos os effeitos que eu d’antes so em theoria reputava possiveis. “ Quando uma folha do papel, que eu chamo sensitivo (sensitive paper), collocada na camara obscura recebe do microscopio solar a imagem amplificada d’um objecto qualquer, o desenho fica prompto no fim, pouco mais ou menos, d’um quarto d’hora. Eu ainda não empreguei vidro que augmentasse muito por cauza do enfraquecimento da luz; mas com um papel mais sensivel poder-se-já usar vidros mais convexos. “ Desta sorte não só se economisará tempo e trabalho, mas tambem se obterá a representação dos objectos que s’alterarem tão rapidamente que não dêem tempo a desenharem-se com lapis, como são algumas cristallisações microscopicas. “ Agora direi alguma couza sobre o gráo de sensibilidade do papel sensitivo; advertindo que ainda estou mui longe de suppor que elle tenha tocado as raias da perfeição. “ Quando se aproxima uma folha de papel sensitivo a uma janella onde não dê o sol, logo começa a fazer-se negra. Por isso quando se prepara este papel á luz do dia, não deve deixar-se descoberto nem um momento, mas arrecadal’o logo em uma gaveta, ou fazel’o seccar á noute ao calor do lume. Antes de me servir deste papel para obter a imagem d’um objecto, exponho-o por alguns momentos á luz para lhe dar uma leve côr, com o fim de conhecer se o fundo está igualmente distribuido. Se passados alguns instantes o papel offerecer este caracter, é provavel que ate ao fim o conserve; mas se eu observo sobre alguns pontos manchas mais carregadas do que o resto da folha, então ponho- -a de parte; porque se me servisse della, expunha-me a que o fundo em vez de aprezentar a cor preta uniforme indispensavel para a belleza do dezenho, mostrasse largas manchas brancas que aniquilarião todo o effeito. “ O papel que é tão sensivel á luz simples d’uma janella, ainda o é mais á que provem directamente dos raios luminosos: e é tal a rapidez com que o effeito se produz que se pode dizer que o desenho acaba e começa ao mesmo tempo. Pode-se avaliar em meio segundo o tempo necessario para obter á luz solar a imagem d’um objecto, e com signaes perfeitamente distinctos. Arquitectura e Paisagem. A applicação do meu methodo aos casos de que aqui vou fallar é talvez o mais admiravel; pelo menos foi a que assombrou mais as pessoas que examinárão a minha collecção de desenhos feitos á luz do sol. “ Não já ninguem que ignore os bons effeitos que se obtem da camara escura, e que não tenha admirado a facilidade com que ella reproduz com todas as cores os objectos collocados da parte de fora. Muitas vezes meditava eu no interesse que este aparelho offereceria se chegassem a fixar-se no papel as engraçadas vistas que por momentos nelle se pintão, ou mesmo se somente fosse possivel fixar os contornos e as sombras dos objectos ainda que privados de todas as cores que os matizão. A facilidade com que eu tinha chegado a fixar as imagens engrandecidas pelo microscopio solar, deu-me esperanças de poder pelo mesmo processo obter a imagem dos objectos collocados fora da camara obscura, posto que fossem illuminados por uma luz muito menos viva. Como na aldea eu não tivesse camara obscura fil’-a d’uma grande caixa a que adaptei uma lente objectiva, a qual enviava a imagem dos objectos externos para o lado opposto ao em que estava situada. Este apparelho provido d’uma folha de papel sensitivo foi collocado a 100 varas pouco mais ou menos de distancia d’um edificio favoravelmente allumiado por um sol de verão ao meio dia. Passada uma hora achei sobre o papel uma imagem bem distincta d’este edificio, excepto das partes que estavão á sombra. Em bem pouco tempo vim a conhecer por experiencia que com pequenos apparelhos era o effeito produzido em menos tempo, e desta sorte cheguei a obter com pequenas caixas, e com pequenas lentes muito convexas, desenhos de notevel exactidão, mas em tão pequenas proporções, que parecião não poder ser senão o resultado do trabalho d’algum artista lilliputiano, sendo precizo serem examinados com uma lente para distinguir todos os objectos minimos que em si encerravão. “ No verão de 1835 obtive grande numero de desenhos da minha caza de campo. O methodo que adoptei era o seguinte. Depois de adaptar uma folha de papel sensitivo ao foco de cada uma destas pequenas camaras obscuras, levava comigo umas poucas que ia collocar em differentes posições ao redor da caza; depois de meia hora tirava-as todas achando em cada uma desenhados em miniatura os objectos diante dos quaes esteve collocada. “ Esta descoberta parece-me que deverá ser util aos viajantes que não souberem desenho, ou tambem ao artista que nem sempre pode ter tempo para reproduzir com o seu lapis todos os objectos, que elle reputa dignos de fixarem a attenção. Posto que a imagem obtida por este trabalho da natureza diffira da que o artista dezenharia, e não possa realmente substituil-a, todavia deve elle ter-se em muitos cazos por feliz podendo obter em tão curtos momentos a representação d’objectos, de que nem a lembrança poderia conservar. Dezenhos de pedaços de escultura. Quando eu quero tirar a imagem d’uma estatua ou d’um baixo relevo, exponho-as a uma luz do sol muito viva, e colloco em conveniente distancia uma pequena camara escura com o papel preparado. Estes ensaios ainda não foram muito adiantados por mim; mas não duvido que se obtenhão, deste modo d’applicar o meu methodo, importantes resultados, e que se possa empregar com grande vantagem em muitas circunstancias. Copias de gravuras. Podem-se obter mui facilmente copias de gravuras ou fac similes; para este effeito applica-se o papel sensitivo á gravura, de modo que as figuras estejão em contacto com o papel. O contacto entre as duas folhas deve ser geral, pois que o menor intervallo altera extraordinariamente o resultado produzindo uma massa vaporosa em lugar dos traços distinctos do original. Expõem-se estas folhas á luz do sol que atravessa logo o papel, excepto nos pontos em que obstão as linhas opacas da gravura, e obtem-se a imagem exacta do desenho. Davy e Wedgwood tinhão já tentado esta experiencia: mas não obteve bom exito porque lhes faltava o papel sensitivo. “ O tempo necessario para obter esta copia varia segundo a grossura do papel em que estiver a gravura. Quando o papel é muito grosso, basta meia hora para obter uma boa copia.. Deste modo reproduzi eu gravuras muito delicadas, e cheias de muitas figuras pequenas que se conservão com grande nitidez. Não deve haver receio de que o papel preparado altere a gravura, uma vez que ambos estejão bem seccos. Entretanto se se observar alguma mancha na gravura depois da operação, será ella facil de tirar com uma preparação chimica que não altere a gravura. “ Nestas especies de copias as sombras e os claros estão ás avessas; mas se uma copia depois de passar pelo processo da conservação poder expor-se aos raios luminosos sem se alterar, pode esta então ser copiada pelo mesmo processo, e ministrar assim a repetição exacta da gravura; porque nesta segunda copia os claros e os escuros tem já recuperado suas primitivas posições. Este processo seria principalmente util para obter sem grande despeza a copia de gravuras raras e unicas, mas que não fosem tão procuradas que merecessem a pena serem de novo gravadas. “ Terminarei fazendo algumas notas sobre uma circunstancia particular que já assignalei, e que é de grande importancia; e vem a ser a disposição que offerecem algumas folhas de papel sensitivo de ficarem insensiveis á luz. Não era facil explicar a causa desta alteração; entretanto creio que se pode attribuir a uma falta de equilibrio. O processo seguido para esta preparação pode produzir dous compostos chimicos diversos, e sobre os quaes a acção da luz solar não produz effeitos exactamente semelhantes. Vê-se por tanto que segundo a preparação do papel levar mais para um ou para outro destes compostos, o que depende de circunstancias apparentemente pouco importantes, e até certo ponto inapreciaveis, assim se obterão effeitos inteiramente differentes em relação ao modo d’acção da luz solar. |
([i]) (*) O interesse que estão actualmente excitando as experiencias de M. Daguerre sobre a arte de fixar os dezenhos na Camara obscura faz com que aqui copiemos a memoria de M. Talbot, em que nos dá a historia de todos os ensaios que sobre este objetcto tinha feito. Se, como parece, elle obteve resultados menos brilhantes que os que chegou a alcançar o sabio artista fracez, tem todavia o merito de reconhecer que havia ainda nuito campo a descobrir, e de indicar o caminho que seguio, e por onde se devia marchar. N. dos RR.
([ii]) (1) M. Talbot escreveu ultimamente uma carta ao Instituto de França em que declarou este processo. Consiste em submetter o papel em que se quer fixar a imagem a uma lavagem com uma solução pouco concentrada de iodureto de potassium, de hyposulfito de potassa ou de soda, ou de chlorureto de sodium.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
1839, Agosto - REVISTA LITERÁRIA ( Revista Literária, Periodico de Litteratura, Philosophia, Viagens, Sciencias, e Bellas Artes )
| 1839 Agosto | REVISTA LITERÁRIA ( Revista Literária, Periodico de Litteratura, Philosophia, Viagens, Sciencias, e Bellas Artes ) Tomo Quarto 3º Anno Nº. XX Pag. 200, 201, 202, 203, 204, 205 Porto - Typographia Commercial Portuense, Largo de S. João Novo, nº 12 1839 Porto | Bellas Artes.
DAGUERROTYPIA : ou Processo Photographico de M. Daguerre ─ Haverá dous seculos que um physico napolitano, João Baptista Porta, observou que fazendo um pequeno buraco no postigo da janella d’um quarto bem fechado, ou melhor ainda em uma chapa metallica delgada applicada ao dito postigo, todos os objectos exteriores, cujos raios podem chegar ao buraco, vão pintar-se na parede do quarto que fica fronteira, com dimensões maiores ou menores segundo as distancias forem menores ou maiores; com as formas e situações relativas exactas, ao menos em grande extensão do quadro; e com as cores naturaes. Pouco tempo depois descobrio o mesmo physico que não é necessário que o buraco seja pequeno, e que pode ter qualquer largura, uma vez que se tape com um destes vidros polidos, que em virtude da sua forma tem o nome de lentes. As imagens produzidas por intermedio do simples buraco são pouco intensas. As outras brilhão com um explendor proporcional á extensão superficial da lente que as gera. As primeiras sempre são mais ou menos confusas: pelo contrario as das lentes, quando são recebidas exactamente no foco, apresentam seus contornos mui distinctos; e muito mais depois da descoberta das lentes achromaticas, – depois que ás lentes simples compostas d’uma só espécie de vidros, e que por isso tinham focos distinctos quantas as cores differentes na luz branca, se substituíram as lentes achromaticas, que reúnem todos os raios possíveis em um so foco: e depois também que se descobrio a forma periscópica. Porta mandou construir camaras obscuras portáteis. Em todas havia um tubo mais ou menos comprido, e munido d’uma lente. O papel ou papelão branco sobre o qual se iam pintar as imagens, estava no foco da lente. O physico napolitano destinava os seus pequenos apparelhos para as pessoas que não sabem desenhar. Segundo elle, não era preciso mais que seguir com a panta d’um lápis os contornos da imagem no foco para obter vistas exactíssimas dos mais complicados objectos. Não se realisou porem completamente o que Porta tinha previsto. Os pintores e desenhistas, particularmente aquelles que fazem os vastos painéis dos panoramas e dioramas, tem algumas vezes de recorrer á camara obscura, mas é so para traçar em globo os contornos dos objectos, para os collocar nas verdadeiras proporções de grandeza e posição, e para satisfazer a todas as exigencias da perspectiva linear. Pelo que toca aos effeitos dependentes da imperfeita diaphaneidade da nossa atmosphera, e que se tem caracterisado pelo termo um tanto improprio de perspectiva aerea, os mesmos pintores mais experientes não esperavam que para os reproduzir com exactidão, lhes podesse servir d’algum auxilio a camara obscura. E por isso ninguém há que depois de ter admirado a clareza dos contornos, a verdade de formas e de cor, a degradação exacta de cores que offerecem as imagens produzidas por este instrumento, não mostrasse grande mágoa d’ellas se não conservarem por si mesmas, e não fizesse votos pela descoberta d’algum meio de as fixar sobre o papelão do foco. Taes dezejos eram geralmente reputados chimeras, e com tudo nós os vemos hoje realisados. Em outros tempos conseguiram os alchymistas combinar a prata com o acido hydrochlorico. O producto desta combinação era um sal branco a que chamaram lua ou prata cornea. Este sal goza da singular propriedade de se fazer negro á luz, ennegrecendo tanto mais depressa quanto mais vivos são os raios luminosos que o teçam. Cubra-se uma folha de papel com uma camada de prata cornea, ou, como hoje se diz, chlorureto de prata: forme-se sobre esta camada por meio d’uma lentea imagem d’um objecto: as partes obscuras da imagem, ou aquellas em que não cahe a luz, conservam-se brancas, as partes muito illuminadas fazem~se completamente pretas: e as meias tintas serão representadas por cores pardas ou cinzentas mais ou menos carregadas. Se sobre uma folha de papel coberto de chlorureto de prata collocarmos uma gravura, e expusermos isto assim á luz do sol, os traços da gravura cheios de tinta impedirão a passagem dos raios luminosos, e em virtude disto as partes correspondentes da capa de chlorureto de prata que cobre o papel, as partes tocadas por esses traços cheios de tinta conservarão sua primitiva alvura. Pelo contrario nos lugares onde não chegou a agua forte, ou que o buril não escavou, ou por outra, onde o papel não tomou tinta e conservou a sua semi transparencia, ahi passará a luz solar, e irá fazer negra a camada salina; o resultado necessário da operação virá por tanto a ser uma imagem semelhante na forma á gravura, mas inversa no que diz respeito ás cores; o branco da gravura é aqui preto, e vice-versa. Estas applicações da propriedade tão curiosa do chlorureto de prata descoberta pelos alchimistas, parece que deviam ter sido tomadas em consideração desde muito tempo; não procédé porem assim o espírito humano. So nos primeiros annos do seculo 19 é que se encontrão os primeiros vestígios da arte photographica. Ja dissemos (a) ([i]) que foram Wedgwood e o celebre H. Davy que primeiro se lembraram de copiar desenhos na camara obscura aproveitando a acção da luz sobre o nitrato de prata ou o chlorureto: mas ao mesmo tempo notamos que estes desenhos so se podiam ver ás furtadellas, porque em poucos momentos desappareciam se eram examinados á luz do dia. Depois dos dous mencionados observadores seguem-se immediatamente Niepce e Daguerre. Niepce era um proprietário que habitava junto de Chalons-sur-Saône; e que consagrava todos os instantes d’ocio a observações scientificas; e as que são relativas á photographia datam de 1814. As de M. Daguerre começam em 1826: e foi no principio deste mesmo anno que os dous observadores se começaram a communicar entre si, porque um fabricante d’instrumentos d’optica teve a indiscrição desculpável de dizer a Niepce que M. Daguerre trabalhava por fixar as imagens representadas na camara obscura. Em 1827 fez Niepce uma viagem a Inglaterra; e em Dezembro desse mesmo anno apresentou á sociedade real de Londres uma memoria sobre seus trabalhos photographicos. A memoria ia acompanhada de muitas amostras em metal, todas ellas resultantes dos differentes methodos por elle descobertos. Já a esse tempo Niepce tinha conseguido fazer corresponder exactamente as cores da copia ás do original, claros a claros, sombras a sombras &c. bem como tinha tornado insensíveis suas copias á acção nigrifica dos raios solares. O contracto de sociedade de Niepce e Daguerre para o trabalho em commum sobre os methodos photographicos tem a data de 14 de Dezembro de 1829. Os contractos posteriores feitos entre Niepce filho, como herdeiro do pae, e Daguerre, fazem menção primeiramente d’aperfeiçoamentos feitos pelo pintor de Paris aos methodos do physico de Chalons; em segundo lugar de processos inteiramente novos descobertos por Daguerre, e que offerecem a grande vantagem de reproduzir as imagens 60 a 80 vezes mais depressa do que os processos antigos. E na verdade Niepce depois de muitos ensaios infructuosos desanimou, porque nunca chegou a fazer uma preparação que promptamente se fizesse negra com o contacto da luz, a pontode lhe serem necessárias 12 horas e mais para obter um desenho photographico, o qual necessariamente havia de ser imperfeito, porque não era possível que em tão grande espaço de tempo não mudassem de poisição, a ate ás vezes de forma, as sombras e os claros da imagem na camara obscura. Alem disso era quase impossível que em tão grande espaço de tempo não ocorressem muitas causas imperceptíveis ou imprevistas que deviam transtornar o trabalho chimico da fixação da imagem. E ultimamente a camada photographica de Niepce depois de receber a imagem, posto que não se fizesse negra com a acção dos raios solares, com tudo fendia-se e gretava. Todos estes inconvenientes, e todas as imperfeições que temos notado, foram pouco a pouco corrigidas por M. Daguerre á custa de trabalhosos e dispendiosos ensaios. Raios luminosos extremamente ténues e enfraquecidos modificam assim mesmo a substancia do Daguérreótypo, e com tanta promptidão que as sombras do sol não tem tempo de fazer sensível mudança de posição. Os resultados são sempre certos uma vez que haja conformidade com as regras simplicíssimas d’arte. E finalmente as imagens ainda que estejam por espaço d’annos expostas ao sol, não se alteram nem na pureza, nem na nitidez, nem na harmonia. As laminas ou chapas em que a luz pinta os admiráveis desenhos de M. Daguerre são folhas de casquinha ─ isto é, de cobre cobertas d’uma mui delgada capa de prata. Para commodidade dos viajantes, e por maior economia seria muito melhor usar do papel: e na verdade foi delle que primeiramente fez uso M. Daguerre; porem a falta de sensibilidade, a confusão das imagens, a pouca certeza dos resultados, e outros inconvenientes foram bastantes para elle trabalhar na descoberta d’outras chapas para receber os desenhos. As laminas metallicas de M. Daguerre custam 500 a 600 reis: mas podem receber successivamente cada uma cem differentes desenhos. A incalculável vantagem do methodo actual de M. Daguerre é em parte devido á tenuidade extrema da camada photogenica, de forma que se pode dizer que elle opera sobre uma verdadeira pellicula. Por mais caros que sejam os ingredientes que elle emprega, a sua quantidade mínima faz com que nem se possa determinar o preço. As pessoas que tem visto operar o artista, e que tem trabalhado conforme as instrucções deste, affirmam que não se requer manipulação alguma que todo o mundo não possa fazer: que não é preciso saber desenho, nem ter habilidade e expedição manual, de modo que qualquer maneja o Daguérreótypo com tanta perfeição como o próprio inventor. A promptidão do methodo é que tem feito maior admiração. Dez minutos a doze são sempre de mais para tirar a vista d’uma paisagem, mesmo nos dias ennevoados do Inverno. No verão com bom sol gasta-se ametade do tempo; e menos se gastará no nosso Portugal, e nas regiões meridionaes. Advirta-se porem que este tempo é so o que a luz gasta a fazer a sua operação na chapa; não se contando o tempo que se emprega em preparar e collocar a camara obscura, a apparelhar a chapa, e a fazer a preparação posterior que torna essa chapa insensível á acção da luz depois de feito o desenho. A preparação sobre que opera M. Daguerre é um reagente muito mais sensível á acção da luz do que qualquer dos que ate esse tempo se tinham descoberto. A luz da lua produz effeito appreciavel no Daguérreótypo. Esta propriedade provavelmente será origem de descobertas importantes para o progresso das sciencias que mais honram o espírito humano. |
sábado, 19 de junho de 2010
Navio “l’Oriental”
| 1839 7 de Outubro |
| O navio L’Oriental chegou a Lisboa. Desconheço a data da partida, mas parece ter chegado à Madeira no dia 23 de Outubro. |
quinta-feira, 17 de junho de 2010
O PANORAMA
| 1840 4 de Janeiro | O PANORAMA Nº. 140, T. IV | DAGUERROTYPO JÁ de outro numero do Panorama (*) ([i]) tiveram os nossos leitores noticia de um prodigioso invento, que sem duvida vai ocasionar uma revolução nas artes do desenho. Então pouco mais sabiamos do que os effeitos e as experiencias. Hoje que o processo foi divulgado por uma indemnisação ( ainda que acanhada ) concedida pelo governo francez ao seu auctor, o insigne Daguerre, daremos a este respeito noticias mais circumstanciadas começando por dizer que o nome do inventor ficou associado ao do invento, o qual se lê no titulo deste artigo, advertindo que conhecemos não serem estas linhas a alcance de todos; mas que nos persuadimos que a muitos poderão utilisar para as pôr em pratica. As noções que vamos dar são um resumo das ideas de Arago, exaradas nos Annaes de Chimica e Physica do mez de Julho do anno passado. Os primeiros experimentadores empregaram para a execução folhas de papel impregnadas de nitrato de prata. Um tal Mr. Niepce lembrou-se de fazaer uso do betume de Judéa dissolvido no oleo de alfazema formando um verniz que applicou sobre uma chapa metalica: submettendo esta chapa á acção do fogo o oleo de alfazema se dissipava, e só ficava adherente á superficie metalica um pó esbranquiçado. A chapa assim preparada disposta sobre o foco da camara-obscura, appresentava quando se retirava ..... sim um imagem - mas confusa e pouco visivel. Entretanto apercebeu-se que na realidade havia na chapa mais alguma cousa alem do que se via, e dedicou-se a indagar alguma substancia propria para tirar o que não conviesse. O primeiro processo que lhe lembrou para conseguir este fim foi uma mistura de oleo de alfazema com o de petroleo. Com este processo obteve resultado; mas ainda pouco satisfactorio. Para corrigir pois o que o projecto tinha de defeituoso lembrou-se depois de misturar o sulfureto de potassa com o iode. Obteve com isto um resultado menos imperfeito, mas que ainda não servia bem: a imagem ficava pouco assignalada e tardava muito tempo a formar-se. Para fixar Niepce lavava então a chapa, o que lhe fazia perder a sensibilidade. Neste estado Niepce só julgava o seu descobrimento proprio para copiar e reproduzir grandezas. Entretanto na mesma epocha Daguerre sem conhecer Niepce caminhava a um fim identico por outro caminho - o de empregar um acção phosphorescente. Logo que se relacionaram, associaram-se os dois e Daguerre fez consideraveis melhoramentos nos processos que Niepce tinha ideado. O betume de Judéa substituiu logo o oleo d'alfazema distillado e para o fazer mais liquido e de mais regular applicação, o fez dissolver no ether. Porem deixando de parte o historico em que viria a ponto contar que já n'uma causa em Paris sobre divorcio appareceu por unico documento a effigie de uma mulher casada nos braços do seu amante, apressemo-nos a offerecer aos nossos leitores o processo seguinte para poderem fazer uso do Daguerrotypo não obstante os varios apparelhos que exige, e as muitas operações que se requerem. Será possivel que entre nós, com o auxilio d'algum mediano chimico a quem se lerem as seguintes linhas, se consiga pô-lo em practica e talvez aperfeiçoar. Toma-se primeiramente uma placa de cobre chapeada de prata desoxidada e limpa com muito cuidado empregando a agua-forte ou o acido nitrico diluido em agua. Expõe-se esta placa assim ao vapor do iode que se fórma em um apparelho construido para este fim. Este vapor gera em cima da chapa uma como pellicula por extremo tenue e sensivel no ultimo gráu, quando se submette á acção da luz. Importa nesta primeira operação que o vapor de iode fórme uma camada ou crusta da mesma espessura por toda a chapa. Este iode que produz o vapor coloca-se no fundo de um apparelho em uma capsula cuberta de um pedaço de gaze metalica. É preciso ter todo ocuidado de não agitar o apparelho durante esta primeira operação, sob pena de falhar tudo. A chapa vai-se cubrindo tanto mais, quanto mais é o tempo que se deixa exposta a esta acção do vapor do iode. Convem pois saber-se conhecer quanto basta. Para este conhecimento não se precisa mais do que olha-la á claridade de uma luz (por quanto toda a operação é feita ás escuras) e vendo se a chapa começa de amarellejar, o que é signal infalivel de estar completa a preparação. Feito isto tira-se a chapa do apparelho, tendo toda a precaução de a subtrahir da acção da luz que em um decimo de segundo a alteraria. Para evitar os raios luminosos Daguerre engenhou um pequeno apparelho acessorio composto de duas tampas de madeira que deixando a chapa dentro se podem fechar hermeticamente. É nesta especie de caixa que a chapa é transportada para a camara-obscura, e se colloca no fóco desta ultima. Por um mechanismo tambem engenhoso as duas tampas se abrem e deixam cahir a chapa no logar da camara-obscura. A luz e o objecto que se quer desenhar projectam-se dentro desta ao modo ordinario, e como lá está já no logar competente a chapa com a pellicula formada pelo iode, é esta que recebe tal projecção. Dentro de 3 a 12 minutos ( conforme a intensidade da acção da luz solar ) esta segunda operação está acabada. Tira-se então a chapa, depois de a metter entre as duas tampas de que fizemos menção. Nella vem já formada realmente a imagem, porem ainda não perceptivel: falta-lhe a terceira operação, destinada a fazer então apparecer a imagem. Esta operação é tambem como a primeira feita ás escondidas da luz do dia. Transporta-se a chapa na competente caixa a outro apparelho em que se expõe (ás escuras) á acção do mercurio á imitação do praticado com o iode e com a precaução de ter inclinada a chapa em um angulo de 45º proximamente, para lhe fazer melhor receber o vapor do mercurio (*) ([ii]): tendo aqui a chapa horisontalmente não sahiria a imagem bem. Com uma vela accesa se póde ver durante esta operação obrar o mercurio como o mais habil pintor.- Elle ataca com mais força as partes que foram com mais intensidade feridas pela luz; escaçamente aquellas sobre que esta apenas rastejou, e deixa intactas as não tocadas. É assim que a imagem avulta, e que se fórmam os claros, os escuros e as penumbras. O objecto unico da operação final é fixar esta imagem impressa na chapa. Basta para isto o conseguir mergulhar rapidamente a chapa no hypossulfito de soda e lava-la depois com agua distillada. E quem fizer esta operação tem com toda a fidelidade quantos desenhos de architectura e paizagem quizer, assim como as copias dos quadros de Rafael, com pouca despeza e sem aturar alheios caprichos. |
domingo, 9 de maio de 2010
PERIÓDICO DOS POBRES
| 1840 3 de Abril | PERIÓDICO DOS POBRES Nº. 81, pag. 362 | VARIEDADES Rio de Janeiro, 20 de JaneiroO Daguerrotypo Havendo se dignado S.M. o Imperador e Altezas Imperiaes acceitar o offerecimento feito pelo Capitão Lucas, commandante do navio-escola L'Orientale, para ver pôr em uso o apparelho de Daguerre para tirar vistas. o dito commandante e o abade Comte, encarregado do manejo do instrumento, se apresentárão no paço da Boa-Vista; e teve o ultimo a honra de explicar na presença dos augustos espectadores todo o processo. Posto este em pratica, formou-se em 9 minutos a vista da fachada do paço tomada de uma das janelas do torreão, e logo em igual tempo a prespectiva geral que se goza da varanda com todasas mais pequenas miudezas e variações. S.M. e Altezas Imperiaes se mostrarão mui satisfeitos com as experiencias, cujo progresso mereceu-lhes toda a attenção, e cujos productos S.M. o Imperador se dignou acceitar. É com effeito o invento de Daguerre uma maravilha bem digna da solemne recompensa nacional que lhe foi concedida em França, com todas as circumstancias mais lisongeiras para um amante da gloria. Pelo apparelho, cuja posse ja entrou no dominio publico, e que em muito excede as mais vivas esperanças do italiano Porta, primeiro inventor da Camara obscura, fica a luz, completa conquista do homem, inteiramente sujeita a trabalhar á vontade e para uso delle: ministra-lhe uma poderosissima alavanca para o aperfeiçoamento, não só de diversos ramos das artes, mas tambem das sciencias, e proporciona-lhes um conhecimento exacto e authentico de todas as partes do globo em que elle habita. Póde-se prognosticar á collecção de vistas que trouxer a Orientale da sua viagem ao derredor do mundo, que, entre todos os resultados desta expedição patriotica, ella desafiará na Europa um gráo particular de interesse; e considerar se deve como nova recompensa do inventor da machina a brilhante applicação que della faz o abbade Comte na diversas estações da viagem, e em primeiro logar aos magnificos sitios do Imperio do Brazil. Se bem que ja por vezes tenhaos occupado os leitores com a importantissima descobertade Daguerre não julgamos fóra de proposito transcrever aqui o extracto do relatorio feito sobre este objecto por Arago á academia das sciencias de Paris. “Longo tempo havia que era conhecida a acção da luz sobre as cores: quem via desbotar os pannos todos os dias, não podia ignorar a causa deste phenomeno tão usual. Mas a isto se redozião todos os conhecimentos dos sabios nesta materia, quando em 1566 se fez a descoberta de uma mina de prata, a que se deu o nome luna cornea, que em lingoagem moderna é o chlororeto de prata. Este mineral tinha a propriedade de se fazer negro quando se expunha á luz. Algum tempo depois observou-se que a acção dos 7 raios em que a luz se decompõe pelo prisma não era a mesma sobre a luna cornea: o raio vermelho quasi não tinha influencia sobre ella; porém o roxo alterava-lhe a côr de uma maneira muito energica. "Foi por este tempo que João Baptista Porta inventou a Camara obscura; mas nas miniaturas que por meio della se obtinhão, erão tão lindas como fugitivas. "Niepce era um destes homens a quem os obstaculosnão servem senão de incentivo para ir avante. Depois d'um milhão de tentativas inuteis, chegou finalmente a inventar uma preparação por meio da qual as laminas de prata em que se recebião as pinturas da camara obscura, conservavão para sempre aslindas miniaturas. O seu procedimento era mui simples: untava a lamina metalica com umsmegna composto de betume de Judêa dissolvido em oleo de alfazema, e o todo era coberto de verniz. Expondo a lamina ao fogo, desapparecia o oleo, e ficava coberto de uma especie de pó esbranquiçado. As laminas assim preparadas erão as que se collocavão no foco da Camara obscura para receber os desenhis. Quando a lamina se tirava, a imagem era ainda imperceptivel; mas molhando-a depois com uma mistura de oleo de alfazema e de petroleo, e lavando-a finalmente em agoa distillada, ficava o desenho indelevel. "Neste estado se achava a descoberta de Niepce, quando Daguerre, que se occupava do mesmo objecto, se lhe associou. Os resultados que o 1º. lhe communicou, estavão ainda mui longe da perfeição: o smegma empregado era de espessura muito irregular; o branco das laminas não era satisfactorio; os desnhos exigião 3 dias para se fazerem visiveis. A communicação das luzes dos 8 physicos levou finalmente a cousa á perfeição. O processo por qae o governo acaba de conceder a Daguerre uma recompensa nacional é o seguinte: "Expõe-se ao vapor do iodo uma lamina de casquinha (cobre e prata) bem limpa por meio de agua forte. Eis-aqui tudo: a lamina, assim preparada, expõe-se á acção da luz no foco da camara obscura, d'onde se tira passado oito minutos. O olho mais exercitado ainda não póde distinguir cousa alguma; mas expondo a lamina ao vapor do mercurio aquecido até 60 graos, apparecem as miniaturas quasi como por encanto. Cousa singular e inexplicavel! É necessario que a posição da lamina no foco da camara obscura seja inclinada." (Jornal do Commercio) |