| 1833 21 de Janeiro | HERCULES FLORENCE - 1833: a descoberta isolada da fotografia no Brasil Boris Kossoy, ( 2ª Edição. Livraria DUAS CIDADES LTDA, São Paulo, 1980 ). | ANTOINE HERCULE ROMUALD FLORENCE emprega o verbo "photographier" e em 19 de Fevreiro "photographie" e "photographia", antecipando-se em pelo menos cinco anos em relação a J. F. W. HERSCHEL. É muito provável que se possam fotografar desenhos, de maneira que se apresentem prateados em campo colorido, porque há meios de acelerar a redução ou revivificação do nitrato de prata, pela luz. O amoníaco auxilia essa redução. |
- ACONTECIMENTOS - ANTOLOGIA – CRONOLOGIA – MISCELÂNIA - NOTÍCIAS - ... – SEC. XIX (Desde 1971, que tenho recolhido em diversas publicações e jornais de época, textos e informações diversas, de assuntos referentes à Fotografia, num período que limitei até ano de 1900,constituindo uma cronologia e antologia. Dada a enorme quantidade de informação que recolhi, este blog encontra-se em ainda organização.)
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
1833, 21 de Janeiro - HERCULES FLORENCE - 1833: a descoberta isolada da fotografia no Brasil
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
1839, 16 de Fevereiro - O PANORAMA
| 1839 16 de Fevereiro | O PANORAMA JORNAL LITTERARIO E INSTRUCTIVO DA Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis Lisboa | REVOLUÇÃO NAS ARTES DO DESENHO O INVENTO, ou descubrimento de que vamos fallar, merece um e outro titulo; a natureza e o engenho do homem podem ahi apostar primasias. A natureza apparece retratando-se a si mesma, copiando as suas obras assim como as da arte, não em paineis presenciaes, inconstantes e fugitivos, como eram e são os rios, os lagos, as pedras e metaes polidos, mas em materia que retem o simulacro do objecto visivel e o fica repetindo com a mais cabal semelhança ainda depois de ausente: isto pelo que toca á natureza. Agora pelo que respeita ao engenho do homem, foi elle quem a forçou a este milagre novo e inesperado. Duas cousas nos dão pena querendo escrever esta noticia; a primeira é que não possamos explica-la e circumstancia-la como cumpria, por falleceremainda as precisas e miudas informações; a segunda, que desse mesmo pouco com que um jornal de Paris, o Seculo, nos vem acenando, não nos consente a indole e extensão da nossa folha apresentar senão o pouquissimo. A camara luminosa ou optica, segundo vulgarmente se diz, é formosa recreação de nossa infancia, e nos permitte viajar sentados n’uma cadeira, no canto da nossa casa, por todos os portos, cidades, ruinas, bosques e desertos do mundo; mas se taes pregrinações não nos custam nem fadigas nem perigos, nem dinheiro e largos annos, tambem a idéa que nos trazem das coisas apartadas é por demais incompleta ou falsa; e todos esses quadros de mão humana são imperfeitos como tudo que d’ella sae. A camara luminosa levava grandes vantagens á camara obscura em um sentido, se em outra lhas cedia; porque, se ahi o artista cercado de trevas via descer, sobre o seu papel alvo e nú, as formas perfeitas, córadas e vivas das coisas externas, e dessas, todas as que lá por fóra senão levavam e fugiam, as prendia com o lapis e pincel, e compunha, ou antes copiava natural e verdadeiro o seu quadro; por outra parte o alcance desta sua magica era sempre mui limitado: e de mais dado que as formas e côres que primitivamente baixavam ao seu papel fossem, nem podessem deixar de ser completas e exactas, como prendê-las era trabalho de mão e instrumentos humanos; ahi vinham tambem forçosamente as differenças, os erros e quando menos os desprimores. Da camara obscura saíam lindas recordações abreviadas do mundo circumstante; mas esses paineis que mais eram formulas representativas do que emanações reaes dos corpos, mais retratos levemente desfigurados do que deflexos proprios, inteiros e absolutos, esses paineis requeriam tempo, paciencia, arte e uso e uma palheta carregada de todas as cores do iris. D’ora ávante porém, sem palheta, nem lapis, sem preceitos artisticos nem dispendio de horas e dias, que digo, sem mover a mão, sem abrir os olhos e até dormitando, poderá o viajante enriquecer a sua pasta com todos os monumentos, edificios e paizagens das longes terras, e o amante mais hospede nas bellas artes, obter por si mesmo o retrato dos seus amores; tão ao natural como o traz debuchado no coração, e mais natural ainda porque não lhe faltarão as miudesas minimas que a vista não alcança e só a lente lhe poderia revelar. Os nossos leitores nos estão já aqui pedindo impacientes a solução de tão incrivel problêma; o que podemos é apontar-lha, isso vamos fazer. Eis-aqui o que o senhor Arago relatou á academia franceza, de cuja é secretario: o senhor Daguerre, famigerado pintor do diorama, andava, largos annos havia. Todo embebido em procurar alguma substancia onde a luz se podesse imprimir, e deixar de si vestigios distinctos, que ainda depois d’ella ausente a denunciassem com todas suas modificações e circumstancias; para este fim andou batendo á porta de varias materias e interrogando todos os corpos e invocando toda a natureza. Em tudo é a diligencia mãe de boa ventura. Encontrou ao cabo uma substancia como a elle sonhára, tão sensivel á acção immediata da luz, que esta lhe deixa os vestigios evidentes do seu contacto, d’esse contacto tão subtil e inapreciavel. Estes vestigios ficam representados por côres que teem em cada ponto uma relação perfeita com os diversos gráus d’intensidade da mesma luz. Não se cuide, comtudo, haver nesta estampa as proprias côres do objecto que ellas representam; não, as diversas côres dos originaes só são denotadas e significadas na copia, com uma extrma exactidão, pela maior ou menor força da luz, isto é, pelo maior ou menor effeito da impressão da luz: vae do original á copia uma differença a este respeito bem comparavel com a que faz uma gravura optima d’um painel a oleo cujo ella fôr perfeitissimo traslado. O vermelho, o azul, o amarello, o verde etc. são significados por combinações por luz e sombra, por meias tintas mais ou menos claras ou escuras, segundo a somma de potencia clarificante que encerra por sua natureza cada uma destas côres. Mas, o que é certo apezar de todo esse desconto, é, que estas são tão extremadas, tem um tal relevo e tamanha verdade como se não pode imaginar sem as ter visto. A delicadeza dos traços, a pureza das fórmas, a exactidão e harmonia dos tons, a perspectiva aeria, o primor das miudezas, isso tudo se representa com a suprema perfeição. A lente, malsim terrivel das malhores obras do desenho, que em todos encontra senões e desares inevitaveis para a arte, gire quanto quizer sobre estas figuras, fite n’ellas quanto tempo lhe agradar, o seu olho inexoravel, desesperar-se-já de não descobrir senão perfeições, depois perfeições, e sempre tudo perfeições. Não já porque nos espantemos: a luz, a propria luz foi a pintora. Do pae da luz creáram divindade ás artes os fabuladores da Grecia; da fabula fez historia o engenho mais creador da nossa edade. Estas gravuras abertas pelo buril dos raios luminosos, estas estampas baixadas, porque assim o digamos, do ceu, mostrou-as o senhor Daguerre aos senhores Arago, Biot, Humboldt e outros, que todos ficaram suspensos e enfeitiçados. O auctor limitado n’um pequenino espaço da ponte, chamada das Artes, trasladou toda a carreira de grandiosidades monumentaes que ufanam e affamam a margem direita do Sena, comprehendendo aquella parte do Louvre que alardea a opulenta galleria das pinturas: e não já linha, não já ponto que não saisse perfeitissimo. Da mesma arte apanhou aquella immensa e gigantesca fabrica de Nossa Senhora de Paris, com toda a sua profusissima cuberta de esculpturas gothicas. Mais fez, que repetiu o prospecto do mesmo edificio, ás oito da manhaã, ao meio dia e ás quatro da tarde, e isto em dois dias diversos, um de chuva, outro de sol; e todas estas vistas, sem exceptuar aquellas mesmas em que a extensão relativa das sombras é identica para quem as observa teem physionomias tão proprias e tão suas, que num relanciar de olhos se adivinha a hora do dia e circumstancias atmosphericas em que se fez cada retrato. E devendo parecer já isto a maxima maravilha, ainda já outra e é a quasi magica ligeireza com que se opera; oito ou dez minutos bastam no clima e ceu ordinariamente espero de Paris para começo e remate de taes quadros; mas com ar mais puro e luz mais estreme, como no Egypto, um minuto bastaria. Todavia, diz o notociador do Seculo, estas admiraveis representações das exterioridades da natureza, certamente por passarem por ellas mãos humanas, carecem do que quer que seja como objectos d’arte. Coisa admiravel! Aquella mesma potencia que as creou parece ausentar-se logo d’ellas: estas obras da luz carecem de luz. Nos proprios pontos mais directamente clareados já uma fallencia de vivesa e de lustre: e na verdade são umas vistas, que a despeito de todas as harmonias de sua impeccavel perfeição, como que parecem sob um ceu denso e boreal que as está esmorecendo e esfriando: parece que ao coarem-se pelo aparelho optico do auctor, todas á uma se revestem do aspecto melancholico do horizonte quando quer anoitecer. Segundo contra. Apesar da summa rapidez da luz, como o seu effeito na substancia do Sr. Daguerre não é instantaneo, qualquer objecto que se mova com velocidade ou lhe não deixa vestigios seus, ou só muito confusos. As folhas das arvores por exemplo, como aquellas que sempre andam balouçando no vento, ficam pelo demais mui perturbadas: mas onde só se pertenderem imagens de natureza sem vida, edificios, monumentos, estatuas ou cousas de semelhante genero, ahi sim, ahi triunfa de todos os outros este novo methodo. Rosto de homem vivo ainda até hoje se não pôde retratar que satisfizesse. Mas o auctor ainda não perdeu a esperança de lá chegar. É inegavel á vista do que levâmos apontado, que este invento, um dos mais admiraveis de nossos tempos, terá largas consequencias em todas as artes do desenho, e contribuirá não só para o progresso do luxo util e aformoseador da sociedade, mas tambem para o maior aproveitamento das viagens, quer sejam scientificas, ou artisticas, ou moraes, quer de simples divertimento e recreação. O auctor, porém, ainda não declarou o seu segredo; e esta immensa revolução, para arrebatar e espalhar-se por todo o mundo, só aguarda uma palavra d’elle, o seu fiat lux. ¤ Este mesmo texto, é publicado no Jornal do Commercio, (Nº. 98 pag 2) do Rio de Janeiro, no dia 1 de Maio de 1839. ( Ao ler o livro de Boris Kossoy HERCULES FLORENCE – 1833: a descoberta isolada da fotografia no Brasil ( 2ª Edição. Livraria DUAS CIDADES LTDA, São Paulo, 1980 ), constatei este facto, pois nas pag 43, 44 e 45, no capítulo intitulado 2. A Descoberta de Daguerre Noticiada no Brasil, vem transcrito o mesmo texto. |
segunda-feira, 29 de março de 2010
O RECREIO Jornal das Familas - A PHOTOGRAPHIA NA BELGICA E NO BRASIL
| 1841 Abril | O RECREIO Jornal das Familas (Lisboa) Nº.4 Pag. 84, 85 | A PHOTOGRAPHIA NA BELGICA E NO BRASIL
Facilè est inventis addere, tinhão dito os antigos, e tinhão dito bem. Apenas Arago publicou o segredo da descoberta de Daguerre, apparecem logo em differentes partes da Europa outras e outras analogas: já demos conta da de Liepmann, em Berlim; dá-la-emos agora da de Breyer, em Liège. O relatorio que dá conta della é feito por Morren, em 5 de Outubro, á Academia das Sciencias de Bruxellas, e diz assim: "Quando se conhecêrão na Belgica os maravilhosos resultados obtidos por Daguerre, começou o Allemão Breyer, de Berlim, e Estudante de Medicina em Liège, a occupar-se, não do meio de fixar as imagens obtidas pela camara obscura, segundo o methodo de Daguerre, mas de achar maneira de reproduzir, sem o auxilio da dita camara obscura, os desenhos, as gravuras e os escriptos. Cinco dias antes da memoravel Sessão em que Arago leo á Academia das Sciencias de Paris o seu relatorio ácerca do daguerrotypo, enviei eu ao Sr. Barão de Stassart, Director desta Academia, um masso sellado diante de testemunhas, em que se continha o resultado dos primeiros trabalhos de Breyer, pedindo a sua leitura na Sessão immediata. "O methodo de Breyer é tal, que dentro de sete minutos, quando muito, e sem o emprego da camara escura, se obtem a copia exacta de qualquer desenho, gravura ou escripto que seja. Esta copia obtem-se por meio da influencia dos raios solares em papel heliographico, que, já preparado, custa apenas mais um ou meio centesimo por folha que o papel ordinario. O original que se emprega não soffre a minima deterioração. "Os desenhos obtidos por Daguerre exigem preparativos minuciosos, que se não fazem em menos de dez ou doze horas, e sobre tudo o emprego da camara obscura. "A descoberta de Breyer póde ter um sem numero de applicações, e todas da mais alta utilidade: a perfeição das copias, a imitação rigorosa das gravuras e dos desenhos os mais minuciosos, comparada com a barateza dos productos, são circumstancias que merecem a attencção da Academia. Na seguinte Sessão de 5 de Novembro terei a honra de vos communicar os novos resultados que o inventor tiver obtido."
DESCOBERTA DA POLIGRAPHIA
Ao que acaba de ler-se ácerca dos trabalhos de Breyer em Liége, devemos accrescentar o artigo seguinte, que, debaixo do título de = Descoberta da Poligraphia = se lê na Phenix de S. Paulo de 26 de Outubro, onde apparece assignado por Hercules Florence, genro do nobre Deputado o Sr. Alvares Machado. Comparem os leitores as datas, e decidão se o Mundo deve a descoberta da Photographia, ou pelo menos da Poligraphia, á Europa ou ao Brasil. "Ha nove annos que trabalho neste novo modo de imprimir, e ha mais de seis que o exercito nesta villa, tendo também desempenhado encommendas da capital e de outros pontos da provincia. É pois bem conhecida esta descoberta entre os Paulistas. Mesmo no Rio de Janeiro, algumas pessoas que tem alta representação publica, alguns distinctos artistas e negociantes, bem conhecidos estão informados de que inventei a Poligraphia, e, se fosse preciso, daria os nomes de muitas pessoas respeitaveis. Não tenho dado ampla publicação a esta descoberta, por querer aperfeiçoa-la, e é bem claro que nesta villa de S. Carlos eu devia precisar de muitos recursos para adianta-la mais depressa. Senefelder teve que trabalhar muitos annos sem fructo, na Allemanha, tão abundante de recursos, luctando com a prespectiva da miseria; e a Lithographia levou 17 annos para passar daquelle pais á França! "A Poligraphia é já facto averiguado que as artes vão adquirir; a prova é, como já disse, que fazem 6 annos que imprimo por ella para o publico desta provincia. "Um motivo poderoso me impelle a fazer esta declaração. Movido por principios que é inutil declarar, não tenho feito segredo do meu processo para com pessoas dignas de confiança. Via-me rodeado de difficuldades locaes; em momentos de total desanimo, julgava que o meu processo acabaria comigo: quiz inicia-lo entre os artistas, e uma memoria declarando tudo foi enviada a Paris o anno passado (1839) por obsequio de uma pessoa que tinha a bondade de apreciar o meu invento. "Outra memoria mais resumida foi enviada em 1831 pelo Sr. Pontois. Receoso de que estes escriptos venhão por fim a cahir em mãos que se appropriem totalmente esta descoberta, e sendo justo que ao menos a idéa fundamental a que serve de origem seja publicamente reconhecida por pertencer ao seu verdadeiro author, sou impellido a fazer a declaração, que precede, ao respeitavel publico. "Outra descoberta minha, conhecida tambem nesta villa, e por algumas pessoas no Rio de Janeiro, é a Photographia: o escripto que foi enviado a Paris levava estes dois titulos: Descoberta da Photographia, ou impressão pela luz solar. Indagações sobre a fixação das imagens na camara escura pela acção da luz. Um desenho photographiado por mim foi apresentado ao Principe de Joinville e posto no seu album por uma pessoa a quem devo este favor. Acabo de ser informado que na Allemanha se tem imprimido pela luz, e que em Paris se está levando a fixação das imagens a muita perfeição. Como eu tratei pouco da photographia, por precisar de meios mais complicados, e de sufficientes conhecimentos chimicos, não disputarei descobertas a ninguem, porque uma mesma idéa póde vir a duas pessoas, porque sempre achei precaridade nos factos que eu alcançava, e a cada um o que lhe é devido; mas antecipo esta declaração a respeito da Polygraphia, que tem tão bellas propriedades, para que a todo o tempo se conheça o seu inventor."
(Diarios do Brasil) |
O RECREIO Jornal das Familas - REVELAÇÃO DO SERGREDO DA POLYGRAPHIA
| 1841 Maio | O RECREIO Jornal das Familas (Lisboa) Nº. 5 Pag. 105, 106, 107 | REVELAÇÃO DO SERGREDO DA POLYGRAPHIA
Mais vezes temos fallado da descoberta da polygraphia, invento devido ao Sr. Hercules Florence, morador na villa de S. Carlos, provincia de S. Paulo; o segredo porém desta importante descoberta tinha ficado até agora occulto, e pelo que haviamos dito sobre o assumpto, pequena idéa se podia fazer da importancia do resultado. Hoje, authorisados por seu author em carta que nos escreve de 25 de Fevereiro, estamos em circumstancias de satisfazer a avidez dos curiosos a um e outro respeito; porque não só podemos revelar, como faremos, em que o dito segredo consiste, mas temos além disto na nossa mão as provas do resultado da sua applicação e emprego. Acha-se nesta typographia uma collecção de 23 impressos polygraphados em diversas épocas desde 1831. O author convida os Srs. Artistas do Rio de Janeiro e a todos os amigos das artes que se quizerem certificar da realidade da descoberta da polygraphia, para que os venhão examinar. « Notarão sem duvida, diz elle, muito atrazo na gravura e incorrecção no desenho; mas é isto devido a difficuldades materiaes que me occupo de remover com o emprego de um papel cellular, em vez da preparação da gomma-arabia, da cera e da garça, de que agora uso.» Já se vê na dita collecção um desenho feito com este papel; e o author tem já conseguido fazer um papel que tem o gráo tão fino como o das pedras lithographicas, sobre o qual está fazrndo um novo ensaio, que, por causa de outras occupações, não póde, por ora, apresentar. De varias impressões polychromas (de muitas côres) se achão na collecção dois exemplos, que, pelo que diz o author, não são dos melhores, em consequencia de que, á medida que erão promptas as encommendas, se entregavão a seus donos. Distinguem-se cinco côres em um dos exemplares, e quatro no outro. Quanto ao methodo porque taes resultados se obtiverão e se podem obter outros iguaes, eis-aqui uma breve exposição do processo: «A tinta é composta de oleo de linhaça concentrado, pouca cera e pós pretos. Deita-se, em quanto quente, em uma fôrma quadragular: depois defria, toma a consistencis do sabão, e apresenta uma superficie perfeitamente plana. «Estende-se papel fino sobre uma taboa, põe-se-lhe uma camada espessa de gomma-arabia tinta de preto, e por cima desta outr de cera. Traça-se o escripto ou o desenho com ponteiros de varias fórmas, de maneira que o traço deixe a gomma-arabia descoberta. «Estende-se por cima do desenho assim gravado uma garça fina, que pela pressão que se faz com uma espatula curva, se prende na cera, e liga todas as partes isoladas do desenho. Cobre-se tudo com um pouco da mesma tinta da fôrma. Tira-se o papel da taboa e põe-se na agoa. A gomma-arabia que está entre o papel e cera dissolve-se e desliga uma da outra; a chapa de cera apresenta então o reverso do desenho ou do escripto, e, se se lhe não põe tinta, póde-se vêr a luz atravéz de todos os traços. Põe-se esta chapa de cera sobre a tinta da fôrma, e fechão-se as beiradas com tiras de papel grudadas. Resulta que a chapa tem a tinta por baixo, a qual com a força da prensa passa atravéz do desenho e imprime-se sobre o papel. Mas é indispensavel que o papel tenha em si um liquido que tenha acção dissolvente sobre a tinta, e por isso põe-se um pouco de decoada forte na agoa em que se molha o papel aonde se vai imprimir. «Tenho imprimido muito tempo com gelatina, com ella foi que imprimi o mappa itinerario da provincia por ordem do Governo; mas esta tinta, que era tão vantajosa para a nitidez dos exemplares, tinha o defeito de não ser indelevel, e de não imprimir com qualquer pequeno gráo de frio. «Quando se quer imprimir com muitas côres, devem setas ser moídas com o mesmo oleo e cera; fazem-se depois talhadas de diversos tamanhos, e embutem-se na tinta da fôrma. Aqui direi de passagem que, se tivesse tido tempo, teria intentado fazer desenhos por esta fórma, e teria impresso quadros a oleo. «Vê-se agora como é que a minha chapa é fornecida de tinta para muitos milheiros de exemplares, porque póde a tinta que está por baixo ter tal espessura que seja inexgotavel. « Estou agora fazendo um papel cellular , ou poroso, permeavel á tinta, para, em vez de cera e garça, formar nelle desenhos cellulares, isto é, taes que nos traços e sombras os póros sejão abertos, e que em tudo o que for campo os póros sejam tapados. Por esta maneira se poderá obter o desenho de lapis como na lithographia, e com o papel cellular se transformarão as provas que se lhe imprimirem em outras tantas chapas. «Nesta nova arte não se empregão pedras, nem chapas de metal, nem madeiras; desenha-se no rigor da palavra, e a impressão é a mais prompta possivel, visto que nunca se poe tinta na chapa: tem-me acontecido dever apertar e tirar com toda a promptidão, porque a mais pequena demora era nociva á nitidez da prova.» Nisto consiste o segredo da importante descoberta da polygraphya: não se sabe qual deve admirar-se mais, se a simplicidade do meio que se emprega, se a grandeza do resultado que se obtem.
(Jornal do Commercio) |